Noutro dia almoçava junto ao pessoal do trabalho quando um deles olhou para um champignon em meu prato, apontou e, sei lá por que cargas d'água, disse: "Eu quero comer esse." Não vi que havia já um amontoado de champignons na borda de seu prato, intocados... Aliás, não vi nada. Não pensei em nada. Simplesmente coloquei meu champignon (adoro champignon) no prato dele. E continuei almoçando. A coisa mais natural do mundo. Com o demorar do silêncio percebi que algo havia acontecido. Não achei que era comigo. Finalmente olhei pra ele e vi que estava surpreso. Talvez perplexo. O outro em sua frente, também. E eu: "Que foi?" Ele: "Por que você fez isso?" Eu: "Porque você queria, uai!" Ele: "Mas eu não gosto de champignon, não lembra outro dia que falei isso?" Ué, podia não gostar naquele dia, mas gostar agora. Mas foi então que olhei pro prato dele e entendi tudo. Quero dizer, entendi que ele não gostava mesmo de champignon, não o porquê dele dizer que queria o meu se não gostava. A perplexidade talvez tenha sido pelo nojo da comida alheia em seu próprio prato... Talvez pela intimidade inesperada, da distância não calculada. Mas, muito mais provavelmente pela naturalidade do meu ato. Como o pai que obedece prontamente ao filho, sem dar tempo do pensamento se esboçar. "Eu quero a sua sobremesa!" Pronto, aí está. O chiclete da minha boca. A roupa do meu corpo. Não importa. Eu faço primeiro pra pensar depois. Se podia, se era lógico, se era adequado... Não sei. Não quero saber. Confio na boca de quem fala como se fosse o coração a pronunciar as palavras. Sou metafórico com a caneta pra ser literal na vida.
Num relacionamento, pra mim, tudo também é literal. Ela disse que sou bonito? Viro galã. Inteligente? Einstein. Que tem tesão? Sou Don Juan. Que se apaixonou? Encomendo alianças. Que me ama? Já estou casado. A menstruação não veio? Já enxergo o sorriso dos netos. Eu a brincar com eles sob o sol, sobre a grama. Uma linda manhã.
Que gosta de mim do jeito que sou? Fartarei a ambos de tanto ser eu mesmo. Transbordarei as fronteiras do suportável. Se me deu as mãos, não entendo recuos. Se está apaixonada, não aceito nada menos que devoção. Sem exigir ou querer explicação. Quer saltar? Já estou lá em cima, num avião. Tenho a certeza absoluta da companhia. Olhar e ver a outra pessoa no chão: muita decepção.
Não me contento apenas com sonhos e possibilidades. Quero ações. Realizações. Realidades.
Lembro que um dia conversávamos ela e eu sobre fantasias. Aí me deparei com um conceito estranho. Pra ela havia o desejo de fazer algo, e a fantasia em fazer algo. Pra mim eram a mesma coisa. Mas ela disse que não. O desejo de fazer, explicou, se referia a alguma coisa que a pessoa queria mesmo fazer. Que faria assim que tivesse oportunidade. A fantasia, não. A fantasia, algo que poderia ficar de forma infindável apenas na imaginação, sem jamais se concretizar, porque a pessoa, no fundo, não faria mesmo aquilo. Eu entendi, mas não achei a mim aplicável. Jamais revelei uma fantasia, por mais absurda, que não quisesse mesmo realizar. Tornar real. Viver. Não tenho fantasias que não faria quando da oportunidade. Pra mim é apenas o tempo da oportunidade existir. Ou melhor, se não existir, criá-la. Quando me dôo, todas as minhas palavras não formam frases, tornam-se confissões. Só escondo, omito ou calo quando constrangido. Quando ser eu passa a ser feio para a outra pessoa. Antes eu me abandonava. Hoje tenho aprendido a ir embora.
Não entendo de metáforas, ironias, sarcasmos, alegorias, eufemismos, disfarces, enfeites... Se falei é porque quero. Se não falei, também posso querer. Se ouvi, pra mim é verdade. Se não ouvi, imagino. Deliro. Quando confio, não me importa pra onde. Se eu convidar e ouvir "sim", já estamos juntos no mesmo barco, e caminho. Se me convidou, já somos nós a viagem, e destino.
Não ignoro a magia do mistério, é claro. Tampouco confio em qualquer um. Em qualquer uma. Para ser considerado adulto, também a aprendi a mentir. Mas, aberto, sou cândido, vulnerável, inocente. Criança. Simplesmente acredito. Verdade não carece tradução.
A brisa não pergunta. Deus existe. As nuvens são mesmo de algodão.