Insieme

Ensemble Insieme Juntos Nместе Together Zusammen

Magia

sexta, 30/nov/2007 às 06:23 por Vanderlei Martinelli

É fazer arte. Correr assustado para trás do sofá... E não apanhar, mas ser apanhado. Ganhar um abraço. Um beijo-perdão, de coração. Inteiro, jamais parte.

É acordar de manhã. E buscar dos sonhos a inspiração. A noção de que tudo aqui não passa de um enorme circo. Se pintar e ir pro picadeiro. O trabalho como um de nossos espetáculos, com hora marcada, de segunda a sexta, com uma platéia que nem sempre quer assistir. É trabalhar como quem não precisa. Insistir.

É dançar como se ninguém estivesse vendo. Dançar para quem quer ver. E se ver, dançando. Dançar e dançar... E dançar.

É "dançar" tantas vezes, cair e levantar. Sacudir a poeira, retornar à tona, retomar o tom e rir do tombo.

É sorrir para o velho, na praça, se unir à criança. Soltar pipa, voar de balão. Fazer céu do chão. Da lágrima-alegria, a esperança.

É brincar de colorir. Não só o papel, mas o coração. De quem passa, de quem fica. De quem vai embora não.

É improvisar na peça. Decorar de gentileza a fala... E esquecer o papel. Criar no gesto a surpresa, a beleza.

É mais que contar com a sorte. É contar com Deus. Perder a conta e se achar num verdadeiro faz-de-conta. A vida é sempre maior que a morte.

É mais que acreditar em milagres, é ter olhos para vê-los acontecer. E acontecer dentro deles, nos olhos-espelhos, de quem amamos, onde moramos, e neles o brilho de quem em nós vive e nos propicia por eles, neles viver.

É ser, apesar de, justamente por. Sermos quem for, mas quem somos. No coro feliz, no choro de dor. Sem vergonha e sem pudor.

É arriscar, mais que perceber tudo por um triz, saltar. Se lançar. Encontrar do outro lado, no outro trapézio, a certeza da mão que desde sempre lhe quis. E lhe quer. Livre e segura. Andar sem medo. Voar qualquer altura.

É aprender imenso e denso. Saber leve e simples. Preencher e preencher-se de amor. E dele arder o sentir do sabor, da vida o ardor.

É descobrir-se, atrevida e tarado. E ternos. Entregar-se e viver o momento, eternos.

É carregar em si a essência e a mudança. Acompanhar e causar o movimento. Crescer e ser criança. Sapeca. Palhaço e boneca.

É poder tirar uma soneca juntos e acordar-nos, preguiçosos ou despertos. Sem julgar se é errado ou certo.

É manter-se sempre aberto. Mesmo longe, perto. A cumplicidade. Sem medo e sem vaidade. Disponibilidade. Sem idade. Sob o sol, serenos. Sob a lua, nua vontade. Ou o inverso, mas sempre de verdade. Fazer-se em versos. Dentro e fora. Frente e verso. A poesia. Noite e dia. Na terra e no mar. Em silêncio ou euforia. Nas diferenças, na harmonia. Em ousadia e paixão.

É compreender sem precisar explicar ou pedir explicação.

É criar, provocar, compartilhar a inspiração. Ter tesão. E admiração. Desejado a desejar. Ser e estar. Continuar apaixonado. Amparado a amparar. Cuidar e ser cuidado.

Magia... É amar e ser amado.


Vermelho

terça, 27/nov/2007 às 17:47 por Vanderlei Martinelli

por entre as fileiras incontáveis de rosas, vermelhas
os roseirais, findo minha dor, junto-me à cor, vermelha
serena e desesperada, espinhos a arranhar-me,
a arrancar-me e a desabrochar um sangue, vermelho
devora-me o doce sabor, líquido e veneno, da boca, vermelha
sonho sonhos novos em tons antigos, vermelhos
rasgo-me inteiro pela noite, longa noite, vermelha
vejo-me inteiro em teu prazer, desejo que arde, vermelho
quero-te inteira, teus amores, tua ira, tua paz e sossego,
teu atrevimento, tua loucura, tua candura, tua aflição e aconchego,
um rio Nilo de amor, e mais: todo o mar, vermelho.

("Vermelho", Vanderlei Martinelli em 25/11/1998)


Postagem em preto e branco

terça, 20/nov/2007 às 13:03 por Vanderlei Martinelli

Não é que eu seja racista, mas existem certas coisas que só os negros entendem.

Existe um tipo de amor que só os negros possuem.

Existe uma marca no peito que só os negros vêem.

Existe um sol cansativo que só os negros resistem.

Não é que eu seja racista, mas existe uma história que só os negros sabem contar.

Que poucos ainda podem entender.

(Éle Semog, poeta angolano)


O caminho das águas

quinta, 08/nov/2007 às 16:31 por Vanderlei Martinelli

Hoje eu queria estar com 94 anos por alguns momentos. Queria sentar-me numa praça repleta de árvores, jardins, flores... Bancos de madeira. Brisa, sol e sombras. Muito gostosas. Muito agradáveis. Várias pessoas. Sentar-me num desses bancos, tranquilamente. Não sozinho. Queria que sentado ao meu lado estivesse esse rapaz que vai fazer 34 anos. Queria dizer algumas coisas a ele. E ele, que gosta tanto de falar, de divagar, de defender com tanta veemência coisas que nem começou a entender direito ainda... Gostaria que ele pudesse ficar quieto um pouco e simplesmente me ouvisse.

Primeiro eu gostaria de dizer que tudo sempre esteve, está e estará bem. Não importa a situação, até mesmo no desespero e na euforia. Tudo está sempre certo, mesmo quando tudo parece errado. Mesmo quando tudo parece perfeito. Pra ele ficar tranqüilo quanto a isto. A dinâmica da vida parece complexa, mas é realmente muito simples. O que ele desconfia por intuição hoje, eu o sei por experiência. Queria dizer-lhe sobre as tantas surpresas que terá, que a vida muitas vezes será diferente do que ele imagina, pra pior e pra melhor. Mas se eu lhe contar, já não será surpresa. E que em outras vezes a vida poderá ser exatamente como pressentiu que seria. Pra ele acreditar mais no poder que tem sobre a própria vida.

Queria dizer-lhe também para não ficar ansioso, não se preocupar. Mas também para que não se acomode. Que não é preciso ver toda a escada para subi-la. A escada não tem fim. Que aproveite ao máximo cada degrau. Que busque sempre o novo, mas que sinta a importância do que já existiu e existe. Que não se dê por satisfeito nunca. Mas que aprenda a satisfazer-se com simplicidade. Que, não importa o quanto ele ache que tenha aprendido, mantenha longe a arrogância, que anula todo aprendizado. E que o aprendizado e o crescimento são também infinitos. Para jamais perder a humildade. Sem fazer-se vítima ou de vítima. Que mantenha viva e acesa a capacidade de se encantar, de se emocionar e emocionar. Que perca a ingenuidade, mas jamais a inocência. E a capacidade de acreditar, e acreditar, e acreditar novamente.

Que há coisas que ele não vai mesmo entender, mesmo com a minha idade. Pra ele não se incomodar com isso. Não é preciso entender as coisas. Basta amá-las e vivê-las. Que por mais que se debruce sobre o mistério de uma alma, querer sabê-la plenamente é impossível. Porque ela própria está no mesmo processo pra si. E uma pessoa vive em constante evolução, passando por mudanças tantas. Mas para ele continuar nessa empreitada sem fim, a de conhecer, aprender e querer desvendar. Amar, admirar e respeitar, em todas as afinidades e diferenças. Começando por ele mesmo.

Que é natural sentir-se solitário algumas vezes. Para algumas pessoas isso se dá de forma mesquinha. Porque têm tudo a sua disposição, assim como todos. Mas agem como cegas. E se isolam, culpando aos outros pela própria solidão. Outras porque já nasceram capazes de um afeto enorme. Que tanto dão como necessitam. Que dando, a outra pessoa nem sempre entenderá ou perceberá o que é, o valor que há. Mesmo assim, que não pare de dar, jamais. Porque algumas sempre perceberam, percebem e perceberão. Simplesmente sentem, mesmo que não digam. Nem tudo há como ser dito. A ação sempre é a melhor voz. Quanto a ele, é preciso saber receber outras formas do mesmo afeto. E reconhecer nelas e em cada detalhe o mesmo valor. São idiomas diferentes para se dizer a mesma coisa: "eu te amo". Que ele aprenda a ser poliglota e não ponha a responsabilidade de suas próprias carências sobre outros ombros. Porque ele jamais esteve, está ou estará sozinho.

Que esse menino assustado, curioso, ousado, encantando e maravilhado com tudo continua assustado, curioso, ousado, encantado e maravilhado, ainda mais agora, tantos anos depois, já um velho senhor. E que isso é lindo. Que tenho orgulho do homem que ele tem se tornado. Quero dizer-lhe para viver intensamente. Sem medo. E levemente. Que jamais perdeu nada, nem ninguém. Todos estamos aqui. Para ele se dedicar aos que ama. Que os ame, verdadeiramente e mais. Sempre. São e serão sempre a verdadeira riqueza que nem a morte apagará.

Por fim, eu gostaria de dizer que não espere. Que possa começar a se amar hoje e agora tanto quanto eu o amo.


Copyright © 2007-2009 Vanderlei Martinelli. Todos os direitos reservados.