É fazer arte. Correr assustado para trás do sofá... E não apanhar, mas ser apanhado. Ganhar um abraço. Um beijo-perdão, de coração. Inteiro, jamais parte.
É acordar de manhã. E buscar dos sonhos a inspiração. A noção de que tudo aqui não passa de um enorme circo. Se pintar e ir pro picadeiro. O trabalho como um de nossos espetáculos, com hora marcada, de segunda a sexta, com uma platéia que nem sempre quer assistir. É trabalhar como quem não precisa. Insistir.
É dançar como se ninguém estivesse vendo. Dançar para quem quer ver. E se ver, dançando. Dançar e dançar... E dançar.
É "dançar" tantas vezes, cair e levantar. Sacudir a poeira, retornar à tona, retomar o tom e rir do tombo.
É sorrir para o velho, na praça, se unir à criança. Soltar pipa, voar de balão. Fazer céu do chão. Da lágrima-alegria, a esperança.
É brincar de colorir. Não só o papel, mas o coração. De quem passa, de quem fica. De quem vai embora não.
É improvisar na peça. Decorar de gentileza a fala... E esquecer o papel. Criar no gesto a surpresa, a beleza.
É mais que contar com a sorte. É contar com Deus. Perder a conta e se achar num verdadeiro faz-de-conta. A vida é sempre maior que a morte.
É mais que acreditar em milagres, é ter olhos para vê-los acontecer. E acontecer dentro deles, nos olhos-espelhos, de quem amamos, onde moramos, e neles o brilho de quem em nós vive e nos propicia por eles, neles viver.
É ser, apesar de, justamente por. Sermos quem for, mas quem somos. No coro feliz, no choro de dor. Sem vergonha e sem pudor.
É arriscar, mais que perceber tudo por um triz, saltar. Se lançar. Encontrar do outro lado, no outro trapézio, a certeza da mão que desde sempre lhe quis. E lhe quer. Livre e segura. Andar sem medo. Voar qualquer altura.
É aprender imenso e denso. Saber leve e simples. Preencher e preencher-se de amor. E dele arder o sentir do sabor, da vida o ardor.
É descobrir-se, atrevida e tarado. E ternos. Entregar-se e viver o momento, eternos.
É carregar em si a essência e a mudança. Acompanhar e causar o movimento. Crescer e ser criança. Sapeca. Palhaço e boneca.
É poder tirar uma soneca juntos e acordar-nos, preguiçosos ou despertos. Sem julgar se é errado ou certo.
É manter-se sempre aberto. Mesmo longe, perto. A cumplicidade. Sem medo e sem vaidade. Disponibilidade. Sem idade. Sob o sol, serenos. Sob a lua, nua vontade. Ou o inverso, mas sempre de verdade. Fazer-se em versos. Dentro e fora. Frente e verso. A poesia. Noite e dia. Na terra e no mar. Em silêncio ou euforia. Nas diferenças, na harmonia. Em ousadia e paixão.
É compreender sem precisar explicar ou pedir explicação.
É criar, provocar, compartilhar a inspiração. Ter tesão. E admiração. Desejado a desejar. Ser e estar. Continuar apaixonado. Amparado a amparar. Cuidar e ser cuidado.
Magia... É amar e ser amado.