Insieme

Ensemble Insieme Juntos Nместе Together Zusammen

Se eu quiser falar...

domingo, 16/dez/2007 às 23:19 por Vanderlei Martinelli

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

("Se eu quiser falar com Deus", Gilberto Gil)


Impreciso

domingo, 16/dez/2007 às 00:17 por Vanderlei Martinelli

Crio o poema quando a perna já não dá... À dura pena, continuo, porque quero chegar. E ir adiante. Mesmo que não adiante, mesmo que não dê. Eu vou tentar.

A vida continua. Não espera a gente parar de chorar. E mesmo que a vida conte, nua, como deveria ser, somos nós que escrevemos o roteiro, o caminho da lágrima, o formato da boca do riso.

Passar pelo paraíso. Ou a boca do lixo.

O instante. O montante. O que é ou não preciso. O investimento. Não importa. Importante é o momento. O sentimento. Vida é só ida. Sem retorno. Sem lamento.

Viver é impreciso.


Não por acaso

sexta, 07/dez/2007 às 01:03 por Vanderlei Martinelli

Não Por Acaso

Há pouco tempo assisti o filme Não Por Acaso (2007, dirigido por Philippe Barcinski e escrito por Fabiana Werneck Barcinski, Philippe Barcinski e Eugenio Puppo). Se você não assistiu mas pretende assistir, é melhor parar a leitura por aqui, porque essa postagem contém "spoilers" (termo em inglês que usam quando alguém vai contar alguma parte do filme [risos]). Se mesmo assim resolver ler, veja o filme. Pode ser que não goste, mas é sempre bom ter a própria opinião do que se dar por satisfeito com a opinião alheia.

E por que, cargas d'água, estou falando desse filme? Bem... Ele parece um pouco lento... Na verdade é propositalmente lento mesmo. Conta duas histórias que não se cruzam explicitamente, mas que têm muito em comum se quem assiste perceber que em ambas há uma pessoa que acredita que pode controlar ou prever os acontecimentos, e não podem. E que percebem também, ao final, que, em outras circustâncias, não só podem mas como devem influenciar o "destino". Também em ambas as histórias, o "acaso" faz com que duas mulheres, cada uma em uma história, morra logo no início, só assim propiciando que outras situações aconteçam. E também, porque as duas personagens principais, Ênio (Leonardo Medeiros) e Pedro (Rodrigo Santoro), no desenrolar das histórias, aprendem muito sobre si mesmos, sobre as pessoas a quem amam... E sobre a vida. Do que está e do que não está sob o nosso poder mudar também.

E por que, cargas d'água, continuo falando do filme? Não é por nada disso que falei até agora. É por uma cena que foi uma das mais lindas que eu pude assistir nos últimos filmes que vi. A primeira história, que conta a reaproximação de uma filha com o pai é emocionante e linda... Tão linda quanto a segunda. Mas o que quero citar aqui é a história onde a personagem vivida por Rodrigo Santoro passa pela experiência de perder a mulher a quem amava. Que estavam planejando a vida juntos. Ela indo morar na casa dele, etc. E logo nos primeiros dias ela sofre um acidente de carro e morre. Ele vem a conhecer a moça para qual foi alugado o antigo apartamento dela. E com o passar do tempo começam a se apaixonar... Mas aí há nele uma série de sentimentos sobrepostos e confusos.

Enquanto a namorada estava viva, numa das cenas, eles acordam de manhã e ela vai preparar uma omelete. E vai explicando passo por passo a ele o que faz uma omelete sair boa ou não. Como havia de se bater os ovos, etc. Bem... Na manhã em que ele e a outra moça acordam juntos, ele vai fazer omelete pra ela. Ela diz que não gosta de comer coisas assim pela manhã, que só quer um café. Mas ele vai fazer a omelete assim mesmo.

E, fazendo a omelete, vai repetindo palavra por palavra da explicação da namorada que faleceu. Repetindo os gestos. E a moça a insistir: "olha, eu só quero um café". E ele ignorando completamente, obcecado na situação, fazendo a omelete. Enquanto isso a moça se depara com detalhes na casa que remetem à namorada que ele teve. Até uma fotografia dos dois, igualzinha a que tirou no dia anterior com ela, no mesmo local inclusive. E resolve se mandar dali. Ele não a estava escutando mesmo...

"E onde está a beleza?", você talvez esteja querendo me perguntar. Calma... Eu chego lá.

A moça vai embora, mas por conta de um enorme congestionamento (causado por Ênio, na primeira história, para impedir que sua filha parta), fica lá presa, no meio do trânsito, dentro de um taxi. Enquanto isso, Pedro sai correndo pelas ruas. Com o passar da cena percebe-se que ele está indo ao apartamento dela. E chega, todo cansado... E não a encontra em casa. Bate na porta... E nada. Não está lá. Então ele estende uma pequena toalha em frente à porta. Tira de dentro da mochila uma xícara e uma garrafa térmica. E as posiciona com cuidado sobre a toalha. E então vai embora, caminhando com os olhos lacrimosos. Depois de um tempo a moça chega em casa, vê aquilo e entende. Recolhe e então, avistando a cidade pela janela, toma, emocionada mas com um sorriso gostoso, seu café. Muito mais que o café, na verdade.


Baianidade

terça, 04/dez/2007 às 00:53 por Vanderlei Martinelli

Nesse calor impraticável, repreensível seria não ser ou não se sentir... Baiano!


Silêncio

domingo, 02/dez/2007 às 21:19 por Vanderlei Martinelli

Calhou de eu morar no final de uma rua que é saída da cidade (está bem, também é entrada, mas prefiro pensar nela como saída). A penúltima casa de um quarteirão em forma de triângulo. A poucos metros há seis ruas, incluindo esta, que se encontram, sem rotatória (ou rotunda ou rótula ou queijo ou como chamam isso na sua cidade). Todas com mãos duplas. Acontece que as motos e carros com seus escapamentos arrebentados e barulhentos parecem passar aqui dentro da sala.

Do outro lado da rua, quase em frente, há um pastor que acha que Jesus é surdo. E as moças da igreja, quando não estão gritando "aleluia" ou qualquer coisa assim, gostam de cantar... E já que gostam, poderiam aprender. Se fossem como nas igrejas evangélicas tradicionais dos Estados Unidos, aquelas negonas lindas e afinadas cantando, eu até freqüentaria a igreja, só para ouvi-las. Mas não é o caso mesmo.

Mas eu falei do triângulo, porque a casa, apesar de não ser enorme, tem outra frente, em outra rua. E nessa outra rua moram uns vizinhos que descobriram que existem "Cidinho e Doca" e "Pedra Letícia"... Nada contra, mas é que eles é que parecem ser surdos ou acham que a vizinhança inteira não tem liberdade de decidir por si própria o que quer ouvir. E repetem as mesmas músicas, vez após outra.

Lá em cima, no quarto dele, mas ecoando pela casa inteira, há meu irmão achando que Fausto Silva no domingo é o máximo. E já que acha que é o máximo, aumenta o volume da televisão no máximo também. Bem... É o máximo sim, mas da minha tolerância.

No meio disso tudo, eu tentando ouvir Ana Carolina e ler Fabricio Carpinejar (que aliás, está aí embaixo num texto quase tão delicioso quanto o Romeu e Julieta que a esposa gemia ao saborear). Aliás, precisava contar isso pra ele... Outro dia, ao ouvir que 'este Carpinejar tem um jeito de derreter as entranhas da gente, né?' e sem entender exatamente como era esse derretimento e que entranhas eram as citadas, soube perfeitamente o que ele sentiu com relação a esposa e o queijo com goiabada (risos). Mas está tudo bem... Eu adoro Carpinejar e queijo com goiabada... E prazeres, gemidos e entranhas a derreter, sejam quais forem, seja como for, por quem ou pelo que for. Liberdade aos gemidos, aos sentidos e às entranhas!

Desisti da Ana Carolina... Não dá pra viajar na voz dela com esse barulho todo. Podia colocar o fone de ouvido, mas isso às vezes me faz sentir um estranho, alienado artificialmente do mundo. Também não consegui me concentrar pra ler o Carpinejar (até rimou). E então vim escrever. E lembrei-me do Tom Jobim uma vez citando um amigo que dizia que o barulho de fora não podia afetar o silêncio de dentro. Não me lembro as palavras, mas o sentido era este. De vez em quando dou conta e quando acontece sinto-me um alienado mais natural.

Há o contrário disso tudo... Quando você está com um barulho enorme por dentro, de angústia ou euforia, e o mundo lá fora está todo em silêncio e não há ninguém para lhe ouvir, ou que lhe queira ouvir. E às vezes também acontece que mesmo que, e por mais que, a gente grite, ninguém vai escutar mesmo. O grito... O grito pode ser bom. Acho que eu deveria ter gritado muito mais em minha vida. Quantas vezes gritei um silêncio ensurdecedor? Quebrando todos os cristais dentro de mim. Devia ter gritado mesmo. E há muitas formas de gritar... O copo jogado é o grito se estilhaçando contra a parede. Mas há o grito que é ruim. Dizem que quem grita é porque já perdeu a razão e o argumento. Eu não grito muito, raramente. Não o grito audível, ao menos. E às vezes falo brandamente crueldades, numa completa ausência de razão ou argumentos, talvez querendo acreditar que a "brandura" crie a sensação de razão ou o argumento passe assim a fazer sentido. Mas tenho aprendido a ficar em silêncio também quando percebo que tenho mesmo é que conversar comigo mesmo sobre minhas próprias carências, imperfeições e equívocos. Às vezes consigo.

O silêncio... Diz-se que há um provérbio oriental que é apenas: "Abençoado o silêncio." Pois, é sim. Mas pode ser uma maldição também. Há o silêncio da omissão. E o silêncio que é uma ameaça, uma severa, e quase sempre injusta, punição. Que pode durar de minutos ou horas, passando por dias, chegando a meses ou anos em casos extremos. Você pode implorar para que a pessoa fale algo e a punição continuará sendo aplicada ferozmente. Em retumbante silêncio. Ensurdecedor. Ela sabe que crime você cometeu, ou que acha que cometeu, mas não lhe diz. Até o mais reles dos criminosos tem direito de saber pelo que está sendo condenado. Nesse caso não. Imagino que foi esse silêncio que fez o Peter Gabriel compor a canção "Come Talk To Me", segundo se diz, para a filha dele. Já conheci exatamente o sentimento em cada letra e nota dessa música.

Tem o silêncio que não consente (aliás, silêncio não é necessariamente consentir nada, quase nunca é) ou o silêncio de quando não se sabe mesmo o que dizer. Ou o silêncio de espanto. Ou do "cala-a-boca". Ou o do medo. Também do respeito, reverência ou admiração.

Há o silêncio de quando é melhor ficar quieto que falar besteira. Ou de quando não adianta mesmo falar nada. E também o silêncio de quando tudo já foi dito... E nada foi conciliado. Não há mais nada a dizer. Como também há o silêncio do adeus. De quem se foi ou de quem vai. E não volta. E não voltará. Ou o silêncio de quem ainda veremos, mas a ausência, mesmo que temporária, o torna insuportável. A voz da minha mãe conversando ou cantando (e como cantava belamente...) era o que fazia esta ser também a minha casa. Junto de seu olhar e seu sorriso, eram a minha casa. Sem ela, aqui é apenas um lugar onde eu fico. E às vezes dou-me conta de outro silêncio, tão gostoso, onde sinto, por conta dela, que jamais estarei sem lar em lugar algum do mundo.

Há o silêncio que é aquele que nos desliga do mundo e nos liga a nós mesmos. E existe o silêncio também delicioso que é o de quando não se precisa dizer nada. Quando estamos ligados de verdade a outra pessoa. Em sintonia mesmo. Tudo está sendo dito de outras formas, pelo toque, pelos poros, pelo sorriso, pelos olhos, pela alma. Ou pela simples presença, mesmo que não seja física. Quando pessoas que se amam conseguem ficar por horas sem falar uma única palavra. Sem a obrigação de dizer ou não dizer. Um silêncio livre, aconchegante, cúmplice, seguro e repleto de amor. Abençoado é este silêncio e quem sabe e tem com quem desfrutá-lo.


Gemido

domingo, 02/dez/2007 às 20:01 por Vanderlei Martinelli

Não costumo sentir ciúme. Mentira, eu sinto, mas disfarço. Eu somente sei disfarçar o ciúme quando não o sinto - a verdade é essa. Mas não imaginava que chegaria a tanto. De repente, minha mulher começa a gemer ao comer queijo e goiabada. Corta devagarinho, em fatias mínimas, para não extraviar nada do prato. Um gemido gostoso, intercalado, luzindo os dentes. Um gemido que me faria gemer para que ele não terminasse. Um gemido que domina os ouvidos por inteiro, ainda mais mobilizador do que um sussurro. Um gemido com o pescoço esticado - se é que sou claro -, altivo, intermitente. Um gemido discreto, de quem não quer entregar o prazer de uma só vez, que abafa o prazer para que ele aumente secretamente. Um gemido igual ao canto das cigarras, que se avoluma com a noite. Um gemido que deixará batom no guardanapo, no talher, no dedo. Um gemido sem herdeiros. Um gemido sem água mineral. Um gemido bebendo a sede. Assistia o gemido com inveja. Com raiva. Todos os sentimentos ruins o admiravam. Ainda que tenha dado alegria para ela, nunca provoquei esse gemido. Esse gemido é filho único dela com ela. Não há como participar. Não é um gemido de irritação, da rotina, da longevidade da tristeza. É um gemido assobiado. Um gemido musicado em flauta. Um gemido de varanda, não de janela. Um gemido que é vento contido. Ela ficou uns quinze minutos sem falar, sem a necessidade de comentar, de se fazer presente, de chamar minha atenção, entretida com os movimentos faciais. Emudeci para não atrapalhar o andamento. Não encontrei um assunto importante para interrompê-la. Era uma reunião de trabalho com a saliva. Sua língua limpava o canto dos lábios com a rapidez da luz. Não sobrava nenhuma réstia do lado de fora do rosto, para que entendesse a comoção. Contentamento egoísta, passional. Os cílios faziam escova a cada escuro das pálpebras. Poderia ficar excitado se não estivesse apavorado. Não conhecia esse gemido. Não o tinha ouvido antes. Surgiu inesperadamente na mesa. Ela me traiu com uma porção de Romeu e Julieta. Depois de comer, apenas disse, satisfeita: "vamos embora". Como se não houvesse alguma coisa mais importante a descobrir e esperar. Recusou café. Não repetiu o prato. Gemido não se repete, o que explica a gravidade de meu ciúme.

("Esse Gemido", Fabricio Carpinejar)


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