Calhou de eu morar no final de uma rua que é saída da cidade (está bem, também é entrada, mas prefiro pensar nela como saída). A penúltima casa de um quarteirão em forma de triângulo. A poucos metros há seis ruas, incluindo esta, que se encontram, sem rotatória (ou rotunda ou rótula ou queijo ou como chamam isso na sua cidade). Todas com mãos duplas. Acontece que as motos e carros com seus escapamentos arrebentados e barulhentos parecem passar aqui dentro da sala.
Do outro lado da rua, quase em frente, há um pastor que acha que Jesus é surdo. E as moças da igreja, quando não estão gritando "aleluia" ou qualquer coisa assim, gostam de cantar... E já que gostam, poderiam aprender. Se fossem como nas igrejas evangélicas tradicionais dos Estados Unidos, aquelas negonas lindas e afinadas cantando, eu até freqüentaria a igreja, só para ouvi-las. Mas não é o caso mesmo.
Mas eu falei do triângulo, porque a casa, apesar de não ser enorme, tem outra frente, em outra rua. E nessa outra rua moram uns vizinhos que descobriram que existem "Cidinho e Doca" e "Pedra Letícia"... Nada contra, mas é que eles é que parecem ser surdos ou acham que a vizinhança inteira não tem liberdade de decidir por si própria o que quer ouvir. E repetem as mesmas músicas, vez após outra.
Lá em cima, no quarto dele, mas ecoando pela casa inteira, há meu irmão achando que Fausto Silva no domingo é o máximo. E já que acha que é o máximo, aumenta o volume da televisão no máximo também. Bem... É o máximo sim, mas da minha tolerância.
No meio disso tudo, eu tentando ouvir Ana Carolina e ler Fabricio Carpinejar (que aliás, está aí embaixo num texto quase tão delicioso quanto o Romeu e Julieta que a esposa gemia ao saborear). Aliás, precisava contar isso pra ele... Outro dia, ao ouvir que 'este Carpinejar tem um jeito de derreter as entranhas da gente, né?' e sem entender exatamente como era esse derretimento e que entranhas eram as citadas, soube perfeitamente o que ele sentiu com relação a esposa e o queijo com goiabada (risos). Mas está tudo bem... Eu adoro Carpinejar e queijo com goiabada... E prazeres, gemidos e entranhas a derreter, sejam quais forem, seja como for, por quem ou pelo que for. Liberdade aos gemidos, aos sentidos e às entranhas!
Desisti da Ana Carolina... Não dá pra viajar na voz dela com esse barulho todo. Podia colocar o fone de ouvido, mas isso às vezes me faz sentir um estranho, alienado artificialmente do mundo. Também não consegui me concentrar pra ler o Carpinejar (até rimou). E então vim escrever. E lembrei-me do Tom Jobim uma vez citando um amigo que dizia que o barulho de fora não podia afetar o silêncio de dentro. Não me lembro as palavras, mas o sentido era este. De vez em quando dou conta e quando acontece sinto-me um alienado mais natural.
Há o contrário disso tudo... Quando você está com um barulho enorme por dentro, de angústia ou euforia, e o mundo lá fora está todo em silêncio e não há ninguém para lhe ouvir, ou que lhe queira ouvir. E às vezes também acontece que mesmo que, e por mais que, a gente grite, ninguém vai escutar mesmo. O grito... O grito pode ser bom. Acho que eu deveria ter gritado muito mais em minha vida. Quantas vezes gritei um silêncio ensurdecedor? Quebrando todos os cristais dentro de mim. Devia ter gritado mesmo. E há muitas formas de gritar... O copo jogado é o grito se estilhaçando contra a parede. Mas há o grito que é ruim. Dizem que quem grita é porque já perdeu a razão e o argumento. Eu não grito muito, raramente. Não o grito audível, ao menos. E às vezes falo brandamente crueldades, numa completa ausência de razão ou argumentos, talvez querendo acreditar que a "brandura" crie a sensação de razão ou o argumento passe assim a fazer sentido. Mas tenho aprendido a ficar em silêncio também quando percebo que tenho mesmo é que conversar comigo mesmo sobre minhas próprias carências, imperfeições e equívocos. Às vezes consigo.
O silêncio... Diz-se que há um provérbio oriental que é apenas: "Abençoado o silêncio." Pois, é sim. Mas pode ser uma maldição também. Há o silêncio da omissão. E o silêncio que é uma ameaça, uma severa, e quase sempre injusta, punição. Que pode durar de minutos ou horas, passando por dias, chegando a meses ou anos em casos extremos. Você pode implorar para que a pessoa fale algo e a punição continuará sendo aplicada ferozmente. Em retumbante silêncio. Ensurdecedor. Ela sabe que crime você cometeu, ou que acha que cometeu, mas não lhe diz. Até o mais reles dos criminosos tem direito de saber pelo que está sendo condenado. Nesse caso não. Imagino que foi esse silêncio que fez o Peter Gabriel compor a canção "Come Talk To Me", segundo se diz, para a filha dele. Já conheci exatamente o sentimento em cada letra e nota dessa música.
Tem o silêncio que não consente (aliás, silêncio não é necessariamente consentir nada, quase nunca é) ou o silêncio de quando não se sabe mesmo o que dizer. Ou o silêncio de espanto. Ou do "cala-a-boca". Ou o do medo. Também do respeito, reverência ou admiração.
Há o silêncio de quando é melhor ficar quieto que falar besteira. Ou de quando não adianta mesmo falar nada. E também o silêncio de quando tudo já foi dito... E nada foi conciliado. Não há mais nada a dizer. Como também há o silêncio do adeus. De quem se foi ou de quem vai. E não volta. E não voltará. Ou o silêncio de quem ainda veremos, mas a ausência, mesmo que temporária, o torna insuportável. A voz da minha mãe conversando ou cantando (e como cantava belamente...) era o que fazia esta ser também a minha casa. Junto de seu olhar e seu sorriso, eram a minha casa. Sem ela, aqui é apenas um lugar onde eu fico. E às vezes dou-me conta de outro silêncio, tão gostoso, onde sinto, por conta dela, que jamais estarei sem lar em lugar algum do mundo.
Há o silêncio que é aquele que nos desliga do mundo e nos liga a nós mesmos. E existe o silêncio também delicioso que é o de quando não se precisa dizer nada. Quando estamos ligados de verdade a outra pessoa. Em sintonia mesmo. Tudo está sendo dito de outras formas, pelo toque, pelos poros, pelo sorriso, pelos olhos, pela alma. Ou pela simples presença, mesmo que não seja física. Quando pessoas que se amam conseguem ficar por horas sem falar uma única palavra. Sem a obrigação de dizer ou não dizer. Um silêncio livre, aconchegante, cúmplice, seguro e repleto de amor. Abençoado é este silêncio e quem sabe e tem com quem desfrutá-lo.