
painel: "Peg dolls around the world" - Textiles for Peace, logo: "Coexist" - Peace Monger
Era noite e nos dividíamos. Entre o abrigo e a rua.
Era frio e nos dividíamos. Amigos e inimigos... A segurança e o perigo.
Entre cobertores e papéis de jornal.
Anal ou vaginal.
A minha e a sua.
O casual e o essencial.
Entre o sol e a lua.
Era quente e nos dividíamos. Entre vidros escuros e pés no asfalto.
Entre a bermuda e o salto alto.
Em movimento ou parados.
No ar-condicionado ou em completa falta de ar.
Entre o ser e o estar. Entre o ter e o dar.
Era dia, e nos dividíamos...
Nos dividíamos entre dias e horas. E, confusos, em fusos horários.
Cegos e visionários. Com posses ou sem bagagem.
Entre o medo e a coragem, cedo ou tarde, nos dividíamos...
Nos dividíamos, mais dia ou menos dia... Sempre e às vezes
E em tempo: semanas, meses e anos. Todos os dias...
Úteis e inúteis, nos dividíamos.
Era uma terra e nos dividíamos: entre fronteiras, países, estados e cidades. Bairros e bairrismos.
Entre eras, costumes, idiomas, modas e moedas, nos dividíamos...
Lerdos ou ligeiros.
Conterrâneos ou estrangeiros.
Condutores ou passageiros.
Nos dividíamos entre cores e peles e olhos. E alturas. Entre castas: nos dividíamos.
Entre fiéis e o clero. Entre governantes e eleitorado. Entre podres e poderosos.
Entre ricos e pobres, gordos e magros.
Feios e belos, nos dividíamos.
Públicos e privados, nos dividíamos.
Entre bombardeiros e bombardeados.
Entre crenças e religiões. Partidos políticos, times de futebol.
Era manhã e nos dividíamos. Entre desiludidos e esperançosos.
Entre fartos e famintos, nos dividíamos.
Físicos ou jurídicos. Clientes ou fornecedores. Consumidos ou consumidores.
Entre motoristas e pedestres.
Entre crianças e adultos.
Entre velhos e novos.
Entre nus e vestidos.
Entre pais e filhos.
Mulheres e homens. E homossexuais... Ativos ou passivos, nos dividíamos.
Entre gostos musicais, entre turmas e tribos: nos dividíamos.
Entre mentirosos e crédulos, entre ruas e casas... Concretos e abstratos.
Entre prédios e campos, nos dividíamos.
Entre punhos fechados e mãos calejadas, nos dividíamos.
Patrões e empregados, mandantes e mandados, quase livres e escravos. Nos dividíamos.
Entre enganados e enganadores, nos dividíamos.
Tortos ou retos. Impotentes ou tarados. Errados ou certos.
De improviso ou em muitos planos.
Entre carnívoros e vegetarianos.
Positivos ou negativos. Entre sãos e doentes.
Entre vampiros e sem dentes.
Entre culpados e inocentes.
Doces e salgados. Iguais e diferentes. Imundos e limpos.
Profanos e sagrados. Nos dividíamos...
Entre o profundo e o superficial.
Abertos ou fechados. Gentis ou mal-educados.
Entre o amor e o ódio. O bem e o mal.
Em total apatia ou completa euforia.
Mente e coração. Silêncio e som. Entre ação e reação.
Nos dividíamos: pertos e distantes.
Entre o sonho e a realidade. Em eternidades e instantes.
Entre prateleiras e estantes... Regras e etiquetas. Nos dividíamos.
Serenos e irritantes. Esposas e amantes.
Entre o gozo e a dor, seja pelo que for: nos dividíamos.
Em tudo ou nada. Arroz e feijão, oito ou oitenta. Sim e não.
Entre os que vivem e os que agüentam.
Entre o desespero e a calma. Em corpo e alma.
Secos e molhados. A calça e a saia.
Entre a serra e a árvore. A floresta e a praia.
Entre a vida e a morte, o azar e a sorte... Fracos e fortes, nos dividíamos.
Entre a espera e o desatino. O acaso e o destino.
A abundância e a miséria. Entre o riso e a coisa séria.
A generosidade e a avareza. A ignorância e a destreza.
Entre canhotos e destros, nos dividíamos.
Nos dividíamos entre tudo... Entretanto, nos dividíamos.
Entre começo e fim: era assim... Noite e dia. Dia após dia. Simplesmente. Nos dividíamos.
E sim: era tarde, muito tarde... E ainda nos dividíamos.
E, enquanto nos dividíamos, evidentemente, jamais fomos inteiros.