Insieme

Ensemble Insieme Juntos Nместе Together Zusammen

Um

sexta, 24/ago/2007 às 05:07 por Vanderlei Martinelli

Coexist

painel: "Peg dolls around the world" - Textiles for Peace, logo: "Coexist" - Peace Monger

Era noite e nos dividíamos. Entre o abrigo e a rua.

Era frio e nos dividíamos. Amigos e inimigos... A segurança e o perigo.

Entre cobertores e papéis de jornal.

Anal ou vaginal.

A minha e a sua.

O casual e o essencial.

Entre o sol e a lua.

Era quente e nos dividíamos. Entre vidros escuros e pés no asfalto.

Entre a bermuda e o salto alto.

Em movimento ou parados.

No ar-condicionado ou em completa falta de ar.

Entre o ser e o estar. Entre o ter e o dar.

Era dia, e nos dividíamos...

Nos dividíamos entre dias e horas. E, confusos, em fusos horários.

Cegos e visionários. Com posses ou sem bagagem.

Entre o medo e a coragem, cedo ou tarde, nos dividíamos...

Nos dividíamos, mais dia ou menos dia... Sempre e às vezes

E em tempo: semanas, meses e anos. Todos os dias...

Úteis e inúteis, nos dividíamos.

Era uma terra e nos dividíamos: entre fronteiras, países, estados e cidades. Bairros e bairrismos.

Entre eras, costumes, idiomas, modas e moedas, nos dividíamos...

Lerdos ou ligeiros.

Conterrâneos ou estrangeiros.

Condutores ou passageiros.

Nos dividíamos entre cores e peles e olhos. E alturas. Entre castas: nos dividíamos.

Entre fiéis e o clero. Entre governantes e eleitorado. Entre podres e poderosos.

Entre ricos e pobres, gordos e magros.

Feios e belos, nos dividíamos.

Públicos e privados, nos dividíamos.

Entre bombardeiros e bombardeados.

Entre crenças e religiões. Partidos políticos, times de futebol.

Era manhã e nos dividíamos. Entre desiludidos e esperançosos.

Entre fartos e famintos, nos dividíamos.

Físicos ou jurídicos. Clientes ou fornecedores. Consumidos ou consumidores.

Entre motoristas e pedestres.

Entre crianças e adultos.

Entre velhos e novos.

Entre nus e vestidos.

Entre pais e filhos.

Mulheres e homens. E homossexuais... Ativos ou passivos, nos dividíamos.

Entre gostos musicais, entre turmas e tribos: nos dividíamos.

Entre mentirosos e crédulos, entre ruas e casas... Concretos e abstratos.

Entre prédios e campos, nos dividíamos.

Entre punhos fechados e mãos calejadas, nos dividíamos.

Patrões e empregados, mandantes e mandados, quase livres e escravos. Nos dividíamos.

Entre enganados e enganadores, nos dividíamos.

Tortos ou retos. Impotentes ou tarados. Errados ou certos.

De improviso ou em muitos planos.

Entre carnívoros e vegetarianos.

Positivos ou negativos. Entre sãos e doentes.

Entre vampiros e sem dentes.

Entre culpados e inocentes.

Doces e salgados. Iguais e diferentes. Imundos e limpos.

Profanos e sagrados. Nos dividíamos...

Entre o profundo e o superficial.

Abertos ou fechados. Gentis ou mal-educados.

Entre o amor e o ódio. O bem e o mal.

Em total apatia ou completa euforia.

Mente e coração. Silêncio e som. Entre ação e reação.

Nos dividíamos: pertos e distantes.

Entre o sonho e a realidade. Em eternidades e instantes.

Entre prateleiras e estantes... Regras e etiquetas. Nos dividíamos.

Serenos e irritantes. Esposas e amantes.

Entre o gozo e a dor, seja pelo que for: nos dividíamos.

Em tudo ou nada. Arroz e feijão, oito ou oitenta. Sim e não.

Entre os que vivem e os que agüentam.

Entre o desespero e a calma. Em corpo e alma.

Secos e molhados. A calça e a saia.

Entre a serra e a árvore. A floresta e a praia.

Entre a vida e a morte, o azar e a sorte... Fracos e fortes, nos dividíamos.

Entre a espera e o desatino. O acaso e o destino.

A abundância e a miséria. Entre o riso e a coisa séria.

A generosidade e a avareza. A ignorância e a destreza.

Entre canhotos e destros, nos dividíamos.

Nos dividíamos entre tudo... Entretanto, nos dividíamos.

Entre começo e fim: era assim... Noite e dia. Dia após dia. Simplesmente. Nos dividíamos.

E sim: era tarde, muito tarde... E ainda nos dividíamos.

E, enquanto nos dividíamos, evidentemente, jamais fomos inteiros.


Ao vinho a vida

quarta, 22/ago/2007 às 20:27 por Vanderlei Martinelli

Gosto de pensar na vida do vinho, em como ele é uma coisa viva. Gosto de pensar sobre o que estava acontecendo no ano em que as uvas estavam crescendo. Como o sol estava brilhando, se choveu... Eu gosto de pensar em todas as pessoas que cultivaram e colheram as uvas. E, se for um vinho velho, quantas dessas pessoas devem estar mortas hoje. Gosto do jeito que o vinho evolui continuamente. Assim, se eu abrir uma garrafa hoje, ele teria um sabor diferente do que se eu o abrisse em qualquer outro dia. Porque uma garrafa de vinho está, na verdade, viva. E ela está constantemente evoluindo e tornando-se mais complexa. Quero dizer, até atingir seu auge... E então começa seu regular e inevitável declínio. E o vinho tem um sabor muito, muito bom!

(Maya, interpretada por Virginia Madsen em Sideways [2004])


À vida o vinho

quarta, 22/ago/2007 às 20:25 por Vanderlei Martinelli

Ela tem uma pele delicada e temperamental. Amadurece cedo. Não é uma sobrevivente, como Cabernet que cresce em todo lugar e prospera até quando é negligenciada. Não. A Pinot requer atenção e cuidados constantes. De fato, ela só cresce em lugares específicos e remotos do mundo. E somente um cultivador dos mais pacientes e cuidadosos consegue mesmo fazer isso... Mesmo. Somente alguém que reserva tempo para entender o potencial da Pinot pode seduzi-la à sua plena expressão. E então... Seu sabor é um dos mais pungentes e brilhantes e estimulantes e sutis e antigos do planeta.

(Miles, interpretado por Paul Giamatti em Sideways [2004])


Insieme

quarta, 15/ago/2007 às 12:37 por Vanderlei Martinelli

Insieme lembra mesmo algo de pele. Que remete a como é bom estar junto de quem se ama. A pele, o cheiro, a voz... O olhar. A presença da pessoa. Presença essa que é importantíssima, vívida e sentida quando pessoalmente, mas que vai além. Estar presente na vida de uma pessoa transcende.

É possível morar ou conviver com outras pessoas sem estar junto delas. Ou sem estarem juntas de nós. Estar no mesmo ambiente físico que outra pessoa, ou até mesmo dizer que está junto não implica que realmente está.

Estar de verdade juntos vai mesmo além. Envolve entrega, confiança, disponibilidade, vontade e disposição.

Em cada ato, em cada gesto, pequeno que seja. Em cada pensamento. Na boa preocupação, no interesse sincero, no apoio nos momentos difíceis, na vibração nos momentos alegres... A troca e o crescimento mútuo, o doar-se, o dar-se de si mesmo. Insieme! Juntos... Pro que der e vier. Viver livremente, levemente... A escolha de caminhar, um ao lado do outro.

Estar juntos é ter a certeza da mão do outro no outro lado do trapézio e a beleza de dar a sua quando o outro precisar. É ter orgulho próprio e orgulho do outro. Praticar a própria liberdade e respeitar a do outro. Admirar quem a outra pessoa é, quem se tornou e quem escolhe ser a cada dia. Assistir o outro e ao outro. Em sua bela dança na vida. E participar, compartilhar a dança. Sem redes de proteção.

É comum acreditar que pais e filhos, por exemplo, estão juntos, por conseqüência natural. Sabemos que não é assim que acontece. Estar juntos é escolha espontânea de dois. Mesmo neste caso. É preciso que ambos queiram. E é por isso mesmo que quando duas pessoas mesmo sem laços familiares, sangüíneos ou não, decidem estar juntas, de verdade, tudo fica tão mais belo. Verdadeiramente belo.

E a beleza está na liberdade e não na obrigação. O amor é livre. E a beleza emociona a quem está em sintonia com ela. O amor leva à beleza, a beleza ao amor. Ambos à grandeza de sermos seres humanos melhores, maiores e humildes. Sábios aprendizes, ousados e dignos. Frágeis e fortes. Gentis e impetuosos. Ao mesmo tempo, ou em qualquer tempo. Belos e livres.

"Sintonia"... Esta palavra ajuda em muito porque é difícil explicar o que é mesmo estar juntos. Mas é muito fácil sentir quando se está e quem está. Assim como todas as coisas mais importantes na vida, também é simples. Mas simples não é o mesmo que fácil. É preciso nos despirmos. Completamente. Nos despirmos da arrogância, do egoísmo, da preguiça, da maldade... De complicações absurdas, grandes ou pequenas.

O amor só cresce em pessoas nuas.

E, nuas, as peles se entendem, conversam muito melhor. Os olhos, as mãos, as vidas... Sem se completar, mas a acrescentar. O amor, a beleza, a magia... E assim o milagre pode então acontecer. E acontece! Quando não se possui nada é que descobrimos que temos, de verdade, tudo.

Que todas as possibilidades existem, apenas esperando por nossa escolha de vivê-las. Mais que para sempre, desde sempre.


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