Insieme

Ensemble Insieme Juntos Nместе Together Zusammen

Desafios

domingo, 06/jan/2008 às 23:39 por Vanderlei Martinelli

Sinto-me desafiado por você. Preciso dizer isto. Mas não é do desafio gratuito que falo. Nem o da dúvida, do desdém, da competição, ou que exija provas de capacidade... Tampouco o é do desafio feito ou aceito por vaidade. Falo de outros desafios... Belos, doces, vorazes sim, mas repletos de encanto, zelo e bondade.

Desafios que nascem com a naturalidade dos sentimentos, dos acontecimentos, dos gestos, das palavras espontâneas... Você me desafia, não porque queira outro que não sou ou porque faça isso de forma invasiva, incisiva ou até mesmo calculada, não. Pois me enxerga e me aceita como sou, de verdade. Aliás, é impressionante como tem esse dom de me enxergar. E este já é em si um desafio pra mim. Pois preciso aprender a me enxergar melhor, e você me ajuda tanto.

Ajuda, não porque tenta ignorar meus erros ou meus defeitos, mas justamente por, junto de mim, tentar encontrar uma solução para eles. Ajuda por não me julgar e ao mesmo tempo respeitar que sou eu quem precisa resolvê-los. Por não usar de críticas ofensivas. Sabe quem eu sou. Sabe até onde posso ir. Mostra-me o caminho quando não o enxergo. E entende a liberdade que tenho de segui-lo ou não.

Mas você enxerga também e tão bem minhas qualidades, meus acertos... Sem, contudo, criar o mito da perfeição, nem a sua obrigatoriedade. E então está aí outro desafio. Porque ao mesmo tempo que me mostra como sou grande, mostra-me também quanto posso ser maior... Melhor. E não fica só assistindo. Participa, integra, traz, provoca e vibra com este crescimento.

Preciosa que é, me desafia a entender melhor meus sentimentos, para não ferir-me, para não feri-la. Eu poderia estar confundindo tudo. Poderia estar apaixonado por estar apaixonado. Poderia estar buscando alívio, fuga, escape. Poderia ser uma vaidade da conquista. Poderia ser uma ilusão romântica. Poderia... E nada disso é. E isto eu sei, pois você me desafia a ter a certeza de que o presente que estou dando é mesmo o presente que penso dar.

Você me desafia, minha querida, a esta possibilidade de um romance mais maduro, mais livre, mais seguro... E ao mesmo tempo, encantador, mágico e belo. Desafia-me ao céu, aos sonhos, mas além deles, ao chão, ao caminho para chegar até eles. Desafia-me a ser o homem que sou e, além dele, o que posso aprender a ser. Desafia-me a aprender. É isto. Inteligente que é, desafia minha mente. Sensível que é, desafia meu coração. Intensa e imensa que é, desafia-me a conhecer sua imensidão, na mesma intensidade que me conhece. Verdadeira que é, desafia-me à liberdade que esta verdade traz. À vida.

Sinto-me desafiado por você, sim. E é preciso que você saiba disto. Desafiado... A lhe amar cada dia mais, lhe amando melhor a cada dia.

Desafios, esses e tantos outros. Que me chamam, que me fascinam, que me levam a ação. Que me levam... Para cada vez mais perto de você. Que me levam... A lhe desafiar também.

("Desafios", Vanderlei Martinelli em 12/fev/2007 às 18:19)


Amor bonito

sábado, 05/jan/2008 às 22:37 por Vanderlei Martinelli

Tenho visto muito amor por aí. Amores mesmo, bravios, gigantescos, descomunais, profundos, sinceros, cheios de entrega, doação e dádiva, mas esbarram na dificuldade de se tornar bonito. Apenas isso: bonitos, belos ou embelezados, tratados com carinho, cuidado e atenção. Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras. Aí esses amores que são verdadeiros, eternos e descomunais de repente se percebem ameaçados apenas e tão somente porque não sabem ser bonitos: cobram; exigem; rotinizam; descuidam; reclamam; deixam de compreender; necessitam mais do que oferecem; precisam mais do que atendem; enchem-se de razões. Sim, de razões. Ter razão é o maior perigo no amor. Quem tem razão sempre se sente no direito (e o tem) de reivindicar, de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que o que está sem razão talvez passe por um momento de sua vida no qual não possa ter razão. Nem queira.

Ter razão é um perigo: em geral enfeia o amor, pois é invocado com justiça mas na hora errada. Amar bonito é saber a hora de ter razão. Ponha a mão na consciência. Você tem certeza que está fazendo o seu amor bonito? De que está tirando do gesto, da ação, da reação, do olhar, da saudade, da alegria do encontro, da dor do desencontro, a maior beleza possível? Talvez não. Cheio ou cheia de razões, você espera do amor apenas aquilo que é exigido por suas partes necessitadas, quando talvez dele devesse pouco esperar, para valorizar melhor tudo de bom que de vez em quando ele pode trazer. Quem espera mais do que isso sofre, e sofrendo deixa de amar bonito. Sofrendo, deixa de ser alegre igual criança. E sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.

Não tema o romantismo. Derrube as cercas da opinião alheia. Faça coroas de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama. Saia cantando e olhe alegre. Recomendam-se: encabulamentos; ser pego em flagrante gostando; não se cansar de olhar, e olhar; não atrapalhar a convivência com teorizações; adiar sempre, se possível com beijos, "aquela conversa importante que precisamos ter", arquivar se possível, as reclamações pela pouca atenção recebida. Para quem ama toda atenção é sempre pouca.

Quem ama feio não sabe que pouca atenção pode ser toda atenção possível. Quem ama bonito não gasta o tempo dessa atenção cobrando a que deixou de ter. Não teorize sobre o amor (deixe isso para nós, pobres escritores que vemos a vida como criança de nariz encostado na vitrine, cheia de brinquedos dos nossos sonhos).

Não teorize sobre o amor, ame. Siga o destino dos sentimentos aqui e agora. Não tenha medo exatamente de tudo o que você teme, como: a sinceridade; não dar certo; depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito); abrir o coração; contar a verdade do tamanho do amor que sente. Jogue pro alto todas as jogadas, estratagemas, golpes, espertezas, atitudes sabidamente eficazes (não é sábio ser sabido): seja apenas você no auge de sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser.

Seja você cantando desafinado, mas todas as manhãs. Falando besteiras, mas criando sempre. Gaguejando flores. Sentindo o coração bater como no tempo do Natal infantil. Revivendo os carinhos que instruiu em criança. Sem medo de dizer, eu quero, eu gosto, eu estou com vontade. Talvez aí você consiga fazer o seu amor bonito, ou fazer bonito o seu amor, ou bonito fazendo seu amor, ou amar fazendo o seu amor bonito (a ordem das frases não altera o produto), sempre que ele seja a mais verdadeira expressão de tudo o que você é, e nunca, deixaram, conseguiu, soube, pôde, foi possível, ser.

Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto. Não se preocupe mais com ele e suas definições. Cuide agora da forma. Cuide da voz. Cuide da fala. Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você.

Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor e só assim poder começar a tentar fazer o outro feliz.

("Gostar é tão fácil que ninguém aceita aprender", Artur da Távola)


Namorados

sábado, 05/jan/2008 às 22:37 por Vanderlei Martinelli

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado é porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

("Ter ou não ter namorado, eis a questão", Artur da Távola)


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