Insieme

Ensemble Insieme Juntos Nместе Together Zusammen

Do intervalo

sexta, 31/out/2008 às 16:43 por Vanderlei Martinelli

O guerreiro sabe que, de vez em quando, o combate é interrompido. Não adianta forçar a luta; é necessário ter paciência, esperar que as forças entrem novamente em choque. No silêncio do campo de batalha, escuta as batidas de seu coração. Repara que está tenso. Que tem medo.

Com as mãos suando frio, constata que o intervalo do combate é mais terrível que a luta em si. E lembra-se que não pode contar apenas consigo: precisa de amigos, conselheiros, e aliados.

O guerreiro faz um balanço de sua vida; vê se a espada está afiada, o coração satisfeito, a fé incendiando a alma.

Paciente, sabe que a manutenção é tão importante quanto a ação.

Sempre tem algo faltando. E o guerreiro aproveita os momentos em que o tempo pára.

("Do intervalo", Paulo Coelho)


Varal

terça, 07/out/2008 às 16:27 por Vanderlei Martinelli

Sou poeta desde que nasci. Melhor: nasci poeta... Ou já era poeta antes de nascer. Não sei. Mas fui descobrir que poetas escreviam poesia anos depois. Havia lido já poemas na escola. Não entendia o ponto. O "certo" não era viver o poema, era tentar adivinhar o entendimento da professora, a única possibilidade de nota. A escola era um empecilho pro meu aprendizado. O recreio sempre me ensinou muito mais.

É comum um velho, sentado numa varanda, olhando o vazio... À pergunta: "o que está fazendo?", responde: "pensando na vida". Crianças não pensam na vida, a vivem. E eu vivia (como vivo). Mas também "pensava na vida". Isso numa criança penso que é algo incomum, que incomodava. Aos outros. O chão do banheiro era conivente comigo. Porta trancada, sentado no chão, podia sentir, chorar, pensar... Viver e revirar meus sentimentos, sem ninguém me achar ainda mais esquisito. Um quarto (que nem era meu) podia ser invadido a qualquer hora. Um banheiro trancado merece mais respeito. Desde que não seja por muito tempo.

Quem nunca escreveu poemas na adolescência? Comecei a escrever na pré-adolescência. Bem... Acho que é isso. Não sei classificar as fases da vida. Mas eu tinha cerca de onze anos. (Também não sei especificar exatamente anos e datas.) Não sabia que aquilo era poesia. Provavelmente não era mesmo. O que eu sentia sim.

Um dia meu irmão chegou em casa com um livro autografado e com dedicatória. Jogou em cima de um móvel qualquer e seu destino, na pior das hipóteses, seria o lixo. Na melhor, seria camuflar-se com poeira entre os outros livros jamais lidos ou tocados por ele. Talvez numa gaveta, que jamais seria aberta. Mas o livro foi ficando lá em cima... Quadrado em vez de retangular. Alguns poucos desenhos primários na capa e um título intrigante: "Varal".

Quem poderia desprezar um livro autografado e com dedicatória? Sei disso porque me atrevi a abrir a primeira página, enquanto ninguém olhava. Percebi que o desprezo era ainda maior, não pelo livro, mas por quem autografou. Um livro com dedicatória merece ser lido. Ao menos por consideração. Mas foi ficando... E ficando... Até que na ausência do meu irmão, resolvi eu mesmo ler. Escondido, é claro.

Senti exatamente o que Neruda escreveu sobre a poesia. Não, o livro não era escrito por ele, fui conhecer Neruda só adiante. Mas Pablo disse: "E foi naquela época que a poesia chegou até a mim. Não sei de onde veio, do inverno ou do rio. Não sei como ou quando. Não eram vozes, nem palavras. Nem silêncio, mas da rua fui chamado abruptamente pelos braços da noite. E entre tiros violentos ou um retorno solitário, lá estava eu, sem rosto e ela me encontrou."

Nas palavras embebidas de poesia e sentimentos de Mônica Montoro. Uma revolução dentro de mim. Alguém que eu jamais vi ou conheci era tão esquisito como eu. Escrevia o que eu sentia, embora tão diferentes os contextos. Ela, ainda adulta. Eu, já criança. Cada palavra era bebida com desespero, alegria e alvoroço de viajante de deserto. O livro virou meu companheiro e cúmplice. Não me lembro quantas vezes li e reli. O livro virou meu, escondido nas minhas coisas. Nunca ninguém sentiu sua falta. Muito menos meu irmão.

Eu queria ter escrito aqueles textos. Mas não era possível. Os sentimentos eram semelhantes, mas as vivências eram outras. Eu não fumava, não bebia uísque com clube-soda, tampouco já tinha sido casado. A minha adolescência nem tinha começado. E eu já sentia tudo. Comecei eu a escrever. Agora sabia que podia escrever. Aprendi com Mônica. E a influência foi tamanha que até hoje, por muitas vezes, me pego escrevendo plágios inconscientes (outros conscientes). Um uso emprestado de palavras, para dizer dos meus sentimentos. Todos os poemas dela eram sobre mim. Mas a outra contracapa chegou. E onde ela parou de escrever, eu continuei. Aprendi a criar as minhas palavras.

Nas tantas mudanças de casa, porém, o livro se perdeu. Junto com minha coleção de figurinhas e playboys. (Criança não tinha direito à propriedade, acho que esse era o lema em casa. Os adultos sempre decidiram o que levar e o que descartar. Sem levar em conta minha opinião.) Mas meu coração é propriedade minha. O livro continuou comigo a vida toda. Em lembranças, no aprendizado, na descoberta, no jeito de escrever.

Mas, vinte e três anos depois, não esperava mais mesmo ler ou ver (fisicamente) o livro de novo. Então, sabendo da história, a bela garimpeira da beleza o encontrou. Num sebo. E me deu mais este presente. Não o mesmo livro, é claro. Abrindo a capa, a dedicatória da autora é outra. Como no primeiro, também para outra pessoa, quase tão desconhecida pra mim, como ainda sou para meu irmão. Ao saber do presente, todas as lembranças voltaram ainda mais fortes. Tantas viagens depois, pude rever o menino lendo e escrevendo, sentado no chão frio do banheiro. Quando o recebi, o folheei como quem revê fotografias antigas e queridas. Ainda não sei quase nada de mim. Mas pude entender melhor aquele menino.

O presente foi mais que um livro: foi a lembrança mais viva de parte da minha vida de volta. A minha nova descoberta, entretanto, foi inusitada. Comecei a entender o que a Mônica realmente queria dizer ou estava dizendo. Parte era o que eu já senti, tantos anos antes. Mas, essa outra parte eu jamais desconfiava. Não porque não poderia entender com aquela idade. Poderia até. Mas descobri que aquele livro que li ainda criança, fui eu mesmo que escrevi. Tudo sempre esteve e está em mim. O livro que ela escreveu era o mesmo, porém outro. Hoje tenho dois livros num só. Tão ricos os dois. "Varal" foi mais que meu primeiro livro de poesia. Foi onde a poesia encontrou o poeta. E o despertou para criar e viver (e às vezes escrever) tantos outros poemas.


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