Insieme

Ensemble Insieme Juntos Nместе Together Zusammen

Tempo e espaço

domingo, 24/fev/2008 às 14:53 por Vanderlei Martinelli

Esqueci que tive pneumonia... Na verdade esqueci a pneumonia, não que a tive. Não fossem alguns poucos remédios "pós-pneumonia", eu esqueceria melhor. Mas ainda não posso esquecê-los por enquanto. Permanente é e será a lembrança de como fui (e sou) amorosa, dedicada e lindamente cuidado. Mesmo quando longe, por ela.

E São Pedro não decidiu ainda se vai chover hoje ou não. Talvez esteja com a consciência pesada depois do estrago na cidade no dia 21.

E é hoje que tem Oscar, né? A lista já enorme de filmes a ver ficará ainda maior.

E os coitados que foram trabalhar hoje na empresa (porque foi dito que o que estavam fazendo durante a semana não pode esperar segunda-feira pra terminar), me ligam pra eu refazer um trecho de código de programação que eu já tinha feito na sexta-feira pós-expediente. Mas não salvaram o arquivo e a VPN está fora do ar e não dá para baixá-lo de novo. Após alguns telefonemas, lá vou eu trabalhar no domingo também, mas por 15 minutos. E está pronto. Eles acham incrível e eu acho incrível eles acharem incrível. Viro herói, mas o que fiz pareceu-me a coisa mais normal do mundo... Digo, o código de programação, não trabalhar no domingo. Talvez aí esteja o heroísmo. Achei meu bom-humor em fazer isso num domingo, incrível.

Releio Carpinejar e reaprendo que não sei escrever. Ficou legal Cassia Eller cantando "Vila do Sossego", mas eu ainda adoro a versão original do Zé Ramalho. Tenho milhares de idéias para textos que se formam inteiramente em minha cabeça... E se destroem inteiramente também no exato e anterior momento ao que eu ia escrevê-los. Estão me rondando, me vigiando, visitam-me para tomar um chá, dizer um olá... Mas ainda não têm muita intimidade. Voltarão na hora apropriada.

Tento passar o dia... Me distrair... Mas nada serve aqui longe... Longe apenas fisicamente, eu sei. Mas... Meu coração está nela. E minha vida, por ela. Contrariando todo o discurso racional, correto e moderno de autosuficiencia, cito Nando Reis: sem ela não sou. Não ser sem quem eu amo e ser tudo e muito mais, mesmo aprender a ser autosuficiente, através de quem eu amo, quando isso é em mim desperto por ser amado (e sou amado, muito). Sei que devoção encanta ou assusta, une ou afugenta. Mas... Certo ou errado, bom ou ruim, desejável ou incômodo, lindo ou insuportável: ser assim faz parte de quem eu sou. O que me move é amor.

Queria mesmo é ver pessoalmente a escrivaninha nova e como ficou a nova arrumação. O quarto, uma extensão: também é ela, tudo que toca e faz. E eu amo. Na verdade quero mesmo é vê-la, nova, antiga... Coração, mente... Corpo e alma. Sorrisos e olhos. Sem pressa, sem tempo, à vontade, com toda vontade e espaço. Transportar-me para o mundo que eu amo e ao qual realmente pertenço, e que só reconheço e me conheço quando meu beijo está em sua boca.


Amor do amor

domingo, 24/fev/2008 às 14:43 por Vanderlei Martinelli

O que é o amor do amor?

Essa intriga ficou como uma úlcera me gastando em segredo.

Estava lustrando meus sapatos de manhã. Não renovava esse gesto artesanal desde adolescente. Retomei com gosto a importância de me agachar para as miudezas.

Despir os cadarços. Alternar a escova, a cera, e o pano. Descobrir as frestas e as ranhuras. Ocultar as pedradas da superfície, limpar os peixes de couro, reconhecer a sola e sua gula pelas profundidades pedregosas. Herdar unhas encardidas e o brilho dos pares ao final.

Os sapatos envelhecem juntos. Eles se igualam com o uso. Não há maior, nem menor. Adquirem a bondade da experiência. A generosidade da estrada.

E cheguei à conclusão de que o amor do amor é estar junto em qualquer região da linguagem.

Linguagem é mais do que lugar. Linguagem cria o lugar.

É a capacidade de dizer qualquer coisa para sua companhia e não ser classificado de grosseiro, deslocado, ridículo.

Não enfrentar uma revista ao embarcar para a viagem pelas vogais. Não ser indiciado. Desfrutar da confiança da observação e da amizade espirituosa.

Ser compreendido no ato. Ou antes mesmo.

Levar alguém para todo o país de sua imaginação.

Intimidade de olhar para a boca mais do que para os olhos, como dois apaixonados aguardando o beijo.

Quando posso ser sarcástico, debochado, pornográfico, poético, ingênuo, idiota, cínico, crédulo com uma mulher e não preciso me explicar, traduzir e pedir desculpa. E ainda parecer genuíno. E ainda parecer engraçado. E ainda parecer justo. E ainda parecer ousado.

Ser estimulado a não mentir.

Ser vários, e não perder a unidade. Ser muitos, e não perder o endereço.

Há algo mais vexatório do que brincar e outra pessoa permanecer séria? Estar se divertindo e ser julgado? Propor relações inesperadas e ser encaminhado para o chat de tortura?

Amor do amor é quando deixamos a expectativa pela esperança. Deixamos de repetir o que ela ou ele deseja ouvir, para se contentar com o que ouvimos. É uma imensa falta dentro da presença, uma imensa concordância dentro da discordância.

O amor é o contexto para aquilo que não tem explicação. O amor é sempre contexto para pensamentos desconexos, palavras excitadas.

Amor do amor é quando não nos envergonhamos de nada. Não há medo de dizer, pensar, errar. Quando o nosso pior continua sendo o melhor para quem nos acompanha.

("Amor do amor", Fabricio Carpinejar)


Quando você recolheu meu corpo

domingo, 24/fev/2008 às 14:25 por Vanderlei Martinelli

Amor, sabe quando eu senti que poderia ser seu?

Talvez nem recorde, não faça importância, pode parecer mais um tolice.

Na primeira vez em que dormimos juntos, depois da nudez esfriar, você esqueceu suas roupas no sofá e apanhou minha camisa do espaldar da cadeira. Não, eu não a alcancei. Você pegou, com um desembaraço esquisito, uma certeza de que não dependia de licença e permissões. Eu fiquei assustado com sua naturalidade.

Cheirou as mangas, a inocência do olfato ao colher uma erva nova. Colocou a camisa deixando a gola solta. A longa camisa entreabrindo os seios. Voltou para perto de mim e procurou a região acolchoada de meu peito. Adormeceu.

Eu não dormi para observá-la. Você se casou comigo ao vestir minha camisa. Não foi depois; foi naquele instante em que dividimos nossas primeiras roupas após dividir o corpo. Minha camisa a protegeu do inverno que insistia em ventilar pelas frestas. Você pensou que ela continuava meu corpo. Eu pensei que você continuava meu corpo.

Minha camisa como um vestido, beirando os joelhos. Minha camisa trocando de lar, de lado. Assumindo seu perfume, suas curvas, tomando a estrada da serra para a praia.

O grito, o gemido e o suspiro conversavam ao mesmo tempo em sua boca.

Em nenhum momento, vacilou, admitiu dilemas, fraquejou em engano. Toda elegância é decidida. Puxando minha camisa para sua cintura, você organizou meus olhos, abriu os botões e os dias que viriam.

Uma mulher não usa a camisa de um homem se não pretende morar com ele. Está vestindo a casa.

Veste a manhã seguinte em plena noite.

Uma mulher não recorre a roupa de um homem à toa, percebe-se protegida. É uma escolha que decidirá as demais perguntas. Um ato de admiração, que tornam os lençóis secundários.

É uma troca secreta de aliança. é bem mais do que levar a escova de dente para ficar na residência do namorado. Um sinal de aceitação mútua. Alguns casais não notam esse detalhe e se separam.

Você misturou nossas vidas, nossos armários, nossos pertences. Nada mais era meu, nada mais era seu.

Ao receber de volta a camisa de manhã, eu não consegui lavar. Já era sua pele. Inundada de esperança.

("Quando você recolheu meu corpo", Fabricio Carpinejar)


Pneumonia

sexta, 08/fev/2008 às 04:43 por Vanderlei Martinelli

Cai lenta a noite. Não acalenta a brisa fresca... À noite. Esfria a noite. É fria a noite fria num tardar de uma noite que seria de verão. Doem meus olhos que garoam, mas verão. Como torna-se quente, a boca. Os lábios secos. Gengiva. Língua a lamber pequenas feridas... Arrepio. A voz tremula. É frio o raro ar que sinto em meu pulmão. O fogo em minha testa. Que testa os meus limites. Queima e leva meu corpo. À exaustão. Pesado e sem calma. Leve, minha alma persiste. Insiste e voa. Meu coração permanece. A salvo. Aquecido. Enquanto suo, soa e adormece. Velado por atento cuidado. Abrigado. Em outro coração.


Viagens e destinos

quarta, 06/fev/2008 às 01:30 por Vanderlei Martinelli

Este carnaval foi muito diferente do que eu gostaria que tivesse sido. Principalmente por minha saúde física não ter estado muito saudável nesses últimos dias. Mas é interessante isso: nem sempre o que mais gostaríamos é o melhor. Às vezes o que acontece é como deveria ter sido, independentemente do que achamos a respeito, para que o melhor mesmo possa acontecer depois. Aceitar isso não é lá muito fácil. Mas é um bom aprendizado também. É preciso enxergar além do óbvio.

Enxergar além do óbvio... Quantas vezes eu já disse isso? Muitas. E vou continuar dizendo. Pra que eu mesmo não esqueça. Enxergar além do óbvio, pra mim, é enxergar além mesmo. Além do superficial, além do que aparenta ser. É sondar, ir mais fundo, mergulhar. Enxergar aberta, livre e amplamente mesmo. Querer entender, compreender, descobrir, desvendar e aprender as coisas. Por que são assim? Por que se dão assim? Por que somos assim? Por que nos comportamos assim? E se fossem diferentes? E se fôssemos diferentes? Quem disse que não são? Quem disse que não somos? Quem disse que são? Quem disse somos?

As perguntas não têm fim. E as respostas também não. Embora as que sabemos sejam poucas, se é que sabemos alguma. A resposta nos encontra apenas quando estamos preparados para suportá-la, encará-la ou entendê-la. E, muitas vezes, nos vem quando não estamos perguntando. Ou, até mesmo, quando já até esquecemos que pergunta era. Isso não é desculpa para parar de perguntar e querer saber, entretanto. Mas, entre tantas perguntas, também é bom saber que há uma hora em que elas precisam de descanso. Assim como nós. Há esse tempo de digestão. Para que depois se retorne à fome, com maior claridade do que se quer realmente comer e experimentar.

Ia fazer uma postagem falando do carnaval, durante o carnaval. Mas também não saiu. Teceria minha opinião sobre o que acho dele. Mas, quem quer saber? Faz diferença dizer? Mas é legal isso, do carnaval ter, de alguma forma, relação com certos aspectos da minha infância, influenciando também conceitos de beleza, sensualidade, sexualidade, expressão e cultura. Embora eu mesmo não tenha sido nem seja do ou no meio carnavalesco.

Depois haveria uma outra postagem contando a história de um príncipe japonês... Que também não saiu. Ouvi a história há pouco tempo e achei que seria legal contá-la aqui. Ou talvez não. Fico imaginando o quanto é de interesse o que se escreve aqui ou não. Ou melhor, o que escrevo ou não. Pra quê escrevo ou não. Pra quem escrevo ou não. Aumentar a consciência e estar mais consciente a cada dia que a cada dia sei que sei ainda menos do que eu imaginava saber... Dá nisso. Às vezes perco o sentido de escrever. Talvez o auge do aprendizado seja descobrir derradeiramente que não se sabe mesmo nada. Mas também talvez se dê como no limite da matemática: talvez nesse ideal jamais se chegue, apenas se aproxime cada vez mais. Então cultivamos a ilusão que sabemos algo. Talvez isso nos leve adiante, para mais perto do destino. Que é saber que não se sabe absolutamente nada. Talvez, e só aí, a liberdade plena. Principalmente a de ser livre de nós mesmos e do que achamos que sabemos ou achamos que somos. Somos o que sabemos? Sabemos o que ou quem somos?

E, então, esta postagem era ou poderia ser também sobre "ser". Se as pessoas (eu incluso, é claro) sabem o que é isso. E também e então era pra ser ou seria sobre liberdade. E de como o amor e a liberdade são (ou deveriam ser, se é amor e liberdade mesmo) intimamente e extremamente relacionados. Depois seria como muitas vezes o que é dito pode ser entendido de forma diferente do que se sentiu ao dizer. Como cada um cria uma realidade diversa para a mesma coisa dita ou acontecida. Enfim... Saiu esta postagem, do jeito que vocês estão (ou não) lendo.

Há algum tempo os textos não me encontram. E mesmo o pouco que tenho escrito ou dito, em vários aspectos e espectros da minha vida, tem sido interpretado diferente do que eu sentia ao dizer, do que eu quis mesmo dizer. Talvez porque eu esteja mesmo muito longe de saber descrever o que sinto. Ou porque tudo que sinto é muito maior do que pode ser descrito. Ou porque tudo pode ser entendido diferente. E aí e então: pode porque pode mesmo. Tem sempre a liberdade de ser. Porque tudo é livre, porque todos somos. E, mesmo depois de e se entendido (talvez), eu custo a entender porque não fui entendido antes... Por que eu complico o simples? Por que simplifico o complexo? E mais perguntas, e respostas que não sei ou não sei se um dia saberei. Ou as saberei, desnecessárias. E nós, a vida e a viagem... O amor, o aprendizado. Todos tão necessários. Aliás, a vida não é uma viagem. Apenas uma parte dela, mas aí já é outra história. Também literalmente. Parte de outra tão maior.

Mas, enfim... Os textos não me encontram porque muitas vezes estavam eles de férias mesmo... De mim. Noutras porque eu estava ocupado em outros lugares distantes de onde estavam... Ou, ainda, porque passei algum tempo brigado com eles ou mesmo fugindo deles. Mas, nos reconciliaremos... Sempre nos reconciliamos. E nos encaramos. Depois nos abraçamos. E nos descobrimos mais e criamos com isso e a partir daí, ainda melhor. Muito mais. Muito além do óbvio, do aparente ou superficial. Espero. Que seja assim. Porque começo e fim não existem. Tudo é diverso, ao mesmo tempo que é uma coisa só. Depende de como se enxerga, de quem enxerga e se está ou não enxergando. Mesmo que diferente, mesmo que igual, mas realmente enxergando ou se empenhando em enxergar.

A última coisa que gostaria de descobrir sobre a vida é que "tanto faz". Mas, nem sempre o que gostaríamos é o melhor. E se essa for a verdade? Que, na verdade, jamais houve, há ou haverá "verdade" alguma? Que, ao mesmo tempo, sempre tudo foi de verdade. Tudo o que foi verdade. E até o que parecia ou era mesmo mentira. A verdade... Que cada um constrói a sua, a que acha melhor pra si. Então, é e não é "tanto faz". Depende de quem ou até onde se enxerga. Então há a construção. De quem somos. Então que seja... Mas pelos moldes próprios, não alheios, de quem queremos ou desejamos ser. Ou, então, sem molde algum. Com ou sem sentido. Mas com sentimentos imensos e verdadeiros. E que se construa...! Com e de verdade. A diferença muitas vezes é admitir que não se sabe fazer diferente. E ter a coragem para ser, e ser diferente. Mesmo quando o igual mudou e a mudança continua semelhante. Não há resposta a descobrir. Porque a verdade sempre esteve, está e estará num único lugar: dentro de nós. Paradoxalmente tão perto, por isso tão distante.

Tudo muito complexo? Nada! Tudo muito simples. Por isso muitas vezes tão difícil de enxergar e vivenciar. Amar não exige esforço, sacrifícios ou respostas. O amor é. Simplesmente é. Leve. Imenso. Intenso. Natural. Livre. Nele a única resposta que realmente interessa e existe: ele mesmo é a resposta, a verdade e o sentido. O que desejo e espero mesmo estar aprendendo. Primeiramente a aprender. Aprendê-lo. Saber o amor, sem então já sabê-lo. Porque ele serei eu, sem eu saber ou entender como, quando ou por quê. Porque ser é muito mais que saber. E o amor, a alma e muito mais. Um caminho sem fim, para qualquer destino. Sabido, escolhido... Ou a saber e a escolher. A descobrir ou a aceitar... Ou, o melhor de tudo, e tudo junto, a criar.


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