Insieme

Ensemble Insieme Juntos Nместе Together Zusammen

Dezenove de Março

quarta, 19/mar/2008 às 21:37 por Vanderlei Martinelli

Poucos sabem, mas minha mãe tinha um sonho quando moça... Ou melhor, um dos sonhos. Queria ser cantora de rádio.

Para quem nasceu em 1913, criada no interior de São Paulo, em Ribeirão Preto, isso era um absurdo. Mais absurdo foi ela não ter sido cantora profissional. Dona de uma voz linda, afinada e emocionante, não foi para o rádio. Mas durante muitos anos tivemos a mais bela cantora, encantadora, só para nós. Privilégio de poucos.

Fosse diferente, talvez eu não estivesse aqui. Mas é complicado pensar no que não foi, já dizia Rilke. Cresci ouvindo as músicas que minha mãe cantava pelas tardes. Eram tardes mágicas. Uma das que ela mais gostava de cantar era essa abaixo, linda na voz de Carlos Galhardo, mas muito, muito mais na voz dela, a melhor interpretação que já ouvi. Tão nostálgica como a possibilidade. Como esta saudade.

Lembrar, deixem-me lembrar
meus tempos de rapaz no Brás
As noites de serestas
casais de namorados,
e as cordas de um violão cantando em tom plangente,
aqueles ternos madrigais.

Sonhar, deixem-me sonhar,
lembrando aquele amor fugaz.
Uma sombra em volta na penumbra
de trás da vidraça faz um gesto lânguido,
cheio de graça, imagem de um passado
que não volta mais.

Tão somente uma recordação
restou daquele grande amor
daquelas noites de luar,
daquela juventude em flor...

Hoje os anos correm muito mais
e as noites já não tem calor,
e uma saudade imensa é tudo
quanto resta ao velho trovador

("Rapaziada do Brás", Alberto Marino)


Caminhos do outono

domingo, 16/mar/2008 às 18:13 por Vanderlei Martinelli

Cai a hora azul... Sons ao longe insinuam a vinda do outono, mais perto. A brisa ainda não fria, já não quente, fresca, anuncia. As moças vestirão suas blusas. Deixarão o que antes era tão abertamente visto e desejado para a imaginação. Seus xales, seus charmes. Os tons beijarão o que é cinza. O vermelho amor já não se confundirá com as cores vivas do verão. Será nítido. Os sorrisos mais forçosos. Distinguir-se-ão da alegria comum. O brilho no olhar será visto e notado atentamente, uma surpresa explícita sem a implícita luz do sol a reluzir. A verdade será plena, não terá onde se esconder.

Os assuntos serão mais sérios. Os banhos mais esparsos e demorados... As saudades mais cortantes. Os braços, aconchegantes. Os amantes se aquecerão. Pele contra pele. Será mais preciosa a emoção. Beber-se-ão como vinhos raros. Os cobertores deixarão órfãos armários. Por um tempo. O lençol brigará com o relógio. Os olhares mais nostálgicos. O trabalho mais duro. Os dias menores. Os sonhos maiores. Sopas e chocolates quentes. Vagarão dementes os bêbados pela noite. Ao longe uivos desconexos. Rasgando o tecido do silêncio. Em dois. Em pares namorados pelas praças. Mãos dadas. Criarão o verão em si. Para dar ao outro. Tão pertos. Serão um.


Postagem em cor-de-rosa

sábado, 08/mar/2008 às 14:37 por Vanderlei Martinelli

'Não é que eu seja feminista, mas existem certas coisas que só as mulheres entendem. Existe um tipo de amor que só as mulheres possuem. Existe uma aperto no coração que só as mulheres sentem. Existem uma rotina cansativa e uma luta diária que só as mulheres resistem. E persistem. Não é que eu seja feminista, mas existe uma história que só as mulheres sabem contar. Que poucos ainda podem entender.'

Este meu plágio descarado sobre o poema original de Éle Semog não é à toa. Hoje é o Dia Internacional das Mulheres. Um dia que, como o Dia da Consciência Negra, só existe para lembrar que todos os outros ainda não são. Que existem hoje mulheres sendo espancadas, mortas, violentadas, vendidas como animais ou mercadorias pelo mundo... E que pouco se faz sobre isso. Mas, além, a violência "branca" do dia-a-dia. Aquele sorriso sarcástico, infame e injusto de certos homens, e até mulheres, diante da injustiça sutil e diária, não menos nociva.

E também... Para agradecer ao próprio Éle Semog, por ter entrado em contato (fiquei muto emocioado com isso, conheço seu poema desde 2000 ou 2001 e a emoção se repete). E por ter contado que não é angolano (embora adoraria), mas brasileiro, do Rio de Janeiro.

E, aproveito também para dizer que tomei a liberdade de usar seu poema sobre os negros, para falar das mulheres... Porque há coisas que só os negros entendem. Há coisas que só as mulheres entendem. Mas que ninguém mais parece querer ouvir, entender ou dar atenção.

Negros nem mulheres são minorias no Brasil e em várias outras partes do mundo. Nem por isso, em pleno século 21 (repleto ainda de machos-brancos-adultos no comando), conseguem o direito de ser tratados simplesmente como são: Seres lindos e humanos. Lindos e fortes... Lindos e grandes... Lindos e frágeis... Lindos e lindos. Simplesmente lindos.

(O amor é sempre maior que todas as injustiças. Um dia todos entenderão.)


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