Insieme

Ensemble Insieme Juntos Nместе Together Zusammen

Shabat

sábado, 21/mar/2009 às 20:09 por Vanderlei Martinelli

Toda sexta-feira à noite começa o Shabat para a tradição judaica. Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino no sétimo dia da Criação.

Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo.

A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.

Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta.

Hoje, o tempo de "pausa" é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações "para não nos ocuparmos". A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições.

Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas.

Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo...

Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim.

Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente.

As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o Domingo de um feriado...

Nossos namorados querem "ficar", trocando o "ser" pelo "estar". Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI. Um dia seremos nossos?

Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante.

Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos...

Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção.

O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida.

A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é "o que vamos fazer hoje?" já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de Domingo.

Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande "radical livre" que envelhece nossa alegria o sonho de fazer do tempo uma mercadoria.

Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar.

Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.

("Os domingos precisam de feriados", Rabino Nilton Bonder)


Vermelha

quinta, 19/mar/2009 às 23:45 por Vanderlei Martinelli

Embora a Revolução Francesa tenha acontecido há mais de 200 anos, seus ideais continuam sendo apenas ideais, sem ainda terem se realizado em nosso mundo. Com este texto termino a trilogia onde pretendi discorrer, respectivamente, sobre a liberdade, a igualdade e a fraternidade (também fazendo alusão às três cores da bandeira francesa). Este ano é o "Ano da França no Brasil" e achei por bem relembrar esses ideais, ainda tão distantes do nosso dia-a-dia.

Quando vejo o atual Papa dizer que combater o 'homossexualismo' (sic, o correto é "homossexualidade") é mais importante que combater a degradação da natureza no planeta, quando vejo essa mesma Igreja punir uma criança por não querer dar à luz um filho que foi fruto de abuso sexual, quando vejo essa "crise" toda que os gananciosos homens de negócio criaram e agora não sabem como sair, quando vejo que um continente tão grande como a África continua simplesmente ignorado como se não fizesse parte do mundo ou do mapa, e tantas outras coisas absurdas acontecendo todos os dias e as pessoas achando que isso é normal... Parece que estamos mergulhados numa nova Idade Média, de escuridão e trevas. Toda a parafernália tecnológica atual não muda em nada o fato do ser humano continuar sendo tão atrasado e tão ignorante, perpetuando conceitos e preconceitos obsoletos e idiotas. Então é mais do que hora de procurar iluminar mais as coisas. De novo. Evoluir de verdade.

Imagine uma comunidade de pessoas onde cada nova criança nascida é filha de todos. Onde sua educação e seu bem-estar são da responsabilidade de todos, parentes ou não. Onde a ousadia do jovem é incentivada e há espaço para ele se desenvolver. Onde a sabedoria dos velhos é realmente ouvida, respeitada e levada em conta. Onde não há o menos ou o mais importante. Onde o conhecimento, o conforto e a riqueza são livremente compartilhados. Onde valores como sensibilidade, respeito, honestidade, honra e dignidade são praticados por todos, naturalmente, em todos os momentos, em todos os dias. Uma sociedade onde a coisa mais preciosa e mais abundante é o amor. O aprendizado e a prática desse amor. Onde cada um tem a consciência que a natureza não é uma entidade separada de nós. Que fazemos parte dela. Somos também ela. Que Deus é e está em todos. E todos são e estão em Deus. Se conseguir imaginar isso, então estamos falando da mesma coisa: fraternidade.

Penso na fraternidade como sendo caminho natural na evolução humana. Quando o ser humano se desvia dela, apenas atrasa seu próprio e inevitável destino. Mas penso também que para alcançá-la é preciso muito, muitíssimo trabalho. Temos todo esse trabalho imenso pela frente. Precisamos mudar o mundo. Devemos mudá-lo. É nossa responsabilidade mudá-lo. Para melhor. É preciso, porém, admitir que ainda não temos essa capacidade nem conhecimento. Não conseguimos nem mudar a nós mesmos ainda. Se soubéssemos ao menos quem somos, mas não sabemos. Não nos permitimos e nem nos interessamos em saber. Conhecer a si próprio é o princípio, o começo do começo, para depois tentar mudar para melhor quem somos. É um processo contínuo, árduo e, na maior parte das vezes, desagradável. Mexeremos com vícios que gostamos muito de ter. Saltarão diante de nós defeitos que teimamos em fingir que não temos. Saberemos o tamanho extremo de nossa ignorância. Por fim, encararemos a nós mesmos, do jeito que somos realmente e não do jeito que queremos que acreditem (e até nós mesmos acreditamos) que somos.

Quando pessoas como Jesus, Gandhi e Madre Tereza deixarem de ser lembrados como exceção à regra, porque a maior parte dos seres humanos será como eles, aí então é que se dará o começo. Ainda não começamos. Mal temos vontade ou força de erguer o pé para dar o primeiro passo. Quando isso acontecer os próximos passos virão, mesmo que ainda árduos, mais facilmente. Então o processo de mudança global poderá realmente acontecer. Porque o mundo externo será também mudado, não por grandes acontecimentos, mas pelos pequenos. Em conseqüência natural da mudança de cada de um. A liberdade, a igualdade, a fraternidade e o amor não serão mais ideais. Serão parte de nós. Tão vivos, reais e imprescindíveis como a água, o ar, a terra e o fogo.


Sexo forte

domingo, 08/mar/2009 às 00:01 por Vanderlei Martinelli

Tantas mulheres me formaram desde a infância.

A que me abandonou. A que me descobriu. A que me rejeitou. A que me acolheu.

Cresci aprendendo a ver pelos olhos da mulher. A sentir pelo seu toque. A desbravar a vida inspirado pela sua coragem. A ser forte imitando sua força. A ser terno embebido em sua ternura. A arriscar confiando na sua intuição. A criar surpreso com sua imprevisibilidade. A querer o que é belo contemplando sua beleza. A amar desvendando o seu coração.

Uma mulher consegue viver sem um homem. Trabalhar em casa, na empresa... Criar filhos. Ainda assim fazer-se atraente. Sair-se dos malabarismos do orçamento doméstico. Lidar com hemorragias mensais. Gerar por meses uma nova vida. Abrir muitas vezes mão da sua própria felicidade para ver feliz a quem ama. Educar. Compreender. Perdoar. Aconchegar. Apoiar. Incentivar. Amar até o fim e incondicionalmente as pessoas que ama. Verdadeiramente.

Uma mulher é feita de graça, de força, de intuição, de garra, de manha. De sutilezas, de rompantes. De todas as forças da natureza. De vida. De beleza. Não foi feita de uma costela de homem. Não foi feita para viver à margem ou à sombra de um homem. Não é feita pela mão dos homens. Que nada são sem as mulheres.

Nasci de uma mulher que não me quis. Mas deu-me a vida, talvez não pudesse dar mais. E tornei-me homem pelas mãos de uma mulher que me ensinou a vida. Que me escolheu pra filho e me amou até o fim. Então aprendi, como continuo a aprender, também com outras mulheres. Próximas e distantes. Amigas e inimigas. Amantes. Amadas. Doces ou arredias. Que me ensinaram também pela dor. Mas que me ensinaram muito mais com seu amor. A ser. Mais que homem, humano. De verdade.

Tantas mulheres me formaram. E me formam. Desde a infância.

Levo-as comigo. Em mim. Assim como a honra de ter conhecido cada uma delas. Gratidão e honra. Força e delicadeza. A paixão e a serenidade. A retidão e a ousadia. A dor e a alegria. O tempero do sal, a doçura do mel. Aprendizados de amor e vida. Para entregar após minha volta, de volta, a Deus. Que sei, há de ser também uma amorosa e linda mulher.


Branca

sexta, 06/mar/2009 às 01:23 por Vanderlei Martinelli

Há muito se luta na humanidade por igualdade. Mas há pouco é que o empenho nessa luta e o esforço de tantos que lutaram começaram a render alguns frutos. Durante muito e muito tempo nem lutar era possível. E o que querem? Serem iguais? De que forma? As mulheres lutam por igualdade. Os negros lutam por igualdade. Os pobres lutam por igualdade. Igualdade com o quê? Com quem? As mulheres iguais aos homens? Os negros iguais aos brancos? Os pobres iguais aos ricos? Bem... O caminho da igualdade não tem a mesma distância em ambas as direções? Por que não se cogita os homens serem iguais às mulheres? Os brancos serem iguais aos negros? Os ricos iguais aos pobres? Afinal de contas, o que é essa tal igualdade pela qual tanto lutam? Pela qual tantos lutam? E mais: quem elegeu o padrão de igualdade pelo qual se deve lutar? Seriam os homens melhores que as mulheres? Os brancos melhores que os negros? Os ricos melhores que os pobres? Quais entre eles estão convencidos disso? Quem convenceu quem? Quem se convenceu primeiro? Quem é mais convencido?

Muito além das mulheres, dos negros e dos pobres... Tantos outros lutam por igualdade. Mas são tão diferentes. Por que tanta ânsia em serem iguais? Então vamos desmistificar isso de uma vez por todas: jamais seremos iguais. E isso é muito bom porque somos mesmo diversos e múltiplos. Muitos confundem a luta por igualdade com a luta por ser igual. E dentre esses há os que querem mesmo ser iguais. Eu citei as mulheres. É uma pena ver que parte delas está mesmo se tornando "homens de saia". Com todo o machismo, arrogância e frieza inerente a vários dos homens. A igualdade não era essa. A mulher é linda como é. Só que aí vem outra distorção. Muitos confundem como é que uma mulher "deve" ser, achando-a menor ou menos importante que o homem. A mulher tem o mesmo tamanho e a mesma importância que o homem, não importa em que época, contexto ou situação.

Não é justo uma mulher, ocupando o mesmo cargo que um homem numa empresa, receber menos por ser mulher. Não é justo a mulher ser desrespeitada ou mal tratada só porque muitas vezes tem uma característica física mais frágil ou uma personalidade mais emocional. Assim como no homem, a força existe na mulher. E nem precisa ser física. O valor é igual, embora as diferenças entre homens e mulheres sejam muitas. E cada uma delas deve ser respeitada. A igualdade em respeito e consideração. Não há melhor ou pior. Maior ou menor. O sexo, o gênero, a cor da pele ou a condição social de uma pessoa jamais deveriam levar ao preconceito ou à discriminação, seja de que tipo for. Somos todos seres humanos com direitos iguais. Então é esta a igualdade pela qual a luta é válida.

Quanto aos outros tratamentos desiguais... Quantos maus exemplos! Imagine a situação em que um adoentado chega ao hospital precisando de tratamento urgente. Se ele pagar de forma particular, o atendimento será um. Se tiver convênio com algum plano de saúde, dependendo do plano e qual modalidade paga, será outro tipo de atenção. Se não tiver plano algum e chegar ao hospital apresentando sua fichinha do "SUS", todos sabemos que passará por uma série de constrangimentos e absurdos ultrajantes até conseguir ser (muito mal) atendido. Isso é igualdade? Igualdade seria uma pessoa chegar ao hospital, ser muito, mas muito bem tratada mesmo. Ter atendimento de primeira do início ao fim. Não importa quem seja. Daí então, no final, na saída, poder-se-ia perguntar se quem pagaria o tratamento seria ela mesma, se seria algum plano de saúde ao qual é conveniada ou se quem arcaria com o custo seria o governo. Não importa quem pagará no final. O tratamento deveria ser igualitário desde o início.

Quer mais exemplos? O acesso à educação... Todos deveriam ter o mesmo (e alto) nível de educação, não importa sua origem, aparência ou renda. Oportunidades iguais de emprego, de moradia, de cultura, de lazer... Não que cada um vá ser igual por ter tido oportunidades iguais. Temos características, personalidades e gostos diferentes. Essa multiplicidade é linda. Assim como as flores têm tantas cores e formatos tão diferentes. E todas são flores. Todas são belas. Nenhuma é menos flor que a outra. Assim se dá com os seres humanos. Tão diferentes e tão igualmente humanos.


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