Insieme

Ensemble Insieme Juntos Nместе Together Zusammen

Insistência

sábado, 30/mai/2009 às 00:37 por Vanderlei Martinelli

Se ela me reconquistasse... Ou, ao menos tentasse. Eu saberia que a conquistei, ao menos uma vez. Mas, que bobagem! Ninguém conquista a ninguém. Países desconhecidos e impossíveis, tesouros submersos e insondáveis. O amor...? Tudo é orgulho e vaidade. Bilhões de umbigos. A verdade é que... O amor não existe. As manhãs vivem. A gente apenas insiste.

Literal

quinta, 28/mai/2009 às 21:11 por Vanderlei Martinelli

Noutro dia almoçava junto ao pessoal do trabalho quando um deles olhou para um champignon em meu prato, apontou e, sei lá por que cargas d'água, disse: "Eu quero comer esse." Não vi que havia já um amontoado de champignons na borda de seu prato, intocados... Aliás, não vi nada. Não pensei em nada. Simplesmente coloquei meu champignon (adoro champignon) no prato dele. E continuei almoçando. A coisa mais natural do mundo. Com o demorar do silêncio percebi que algo havia acontecido. Não achei que era comigo. Finalmente olhei pra ele e vi que estava surpreso. Talvez perplexo. O outro em sua frente, também. E eu: "Que foi?" Ele: "Por que você fez isso?" Eu: "Porque você queria, uai!" Ele: "Mas eu não gosto de champignon, não lembra outro dia que falei isso?" Ué, podia não gostar naquele dia, mas gostar agora. Mas foi então que olhei pro prato dele e entendi tudo. Quero dizer, entendi que ele não gostava mesmo de champignon, não o porquê dele dizer que queria o meu se não gostava. A perplexidade talvez tenha sido pelo nojo da comida alheia em seu próprio prato... Talvez pela intimidade inesperada, da distância não calculada. Mas, muito mais provavelmente pela naturalidade do meu ato. Como o pai que obedece prontamente ao filho, sem dar tempo do pensamento se esboçar. "Eu quero a sua sobremesa!" Pronto, aí está. O chiclete da minha boca. A roupa do meu corpo. Não importa. Eu faço primeiro pra pensar depois. Se podia, se era lógico, se era adequado... Não sei. Não quero saber. Confio na boca de quem fala como se fosse o coração a pronunciar as palavras. Sou metafórico com a caneta pra ser literal na vida.

Num relacionamento, pra mim, tudo também é literal. Ela disse que sou bonito? Viro galã. Inteligente? Einstein. Que tem tesão? Sou Don Juan. Que se apaixonou? Encomendo alianças. Que me ama? Já estou casado. A menstruação não veio? Já enxergo o sorriso dos netos. Eu a brincar com eles sob o sol, sobre a grama. Uma linda manhã.

Que gosta de mim do jeito que sou? Fartarei a ambos de tanto ser eu mesmo. Transbordarei as fronteiras do suportável. Se me deu as mãos, não entendo recuos. Se está apaixonada, não aceito nada menos que devoção. Sem exigir ou querer explicação. Quer saltar? Já estou lá em cima, num avião. Tenho a certeza absoluta da companhia. Olhar e ver a outra pessoa no chão: muita decepção.

Não me contento apenas com sonhos e possibilidades. Quero ações. Realizações. Realidades.

Lembro que um dia conversávamos ela e eu sobre fantasias. Aí me deparei com um conceito estranho. Pra ela havia o desejo de fazer algo, e a fantasia em fazer algo. Pra mim eram a mesma coisa. Mas ela disse que não. O desejo de fazer, explicou, se referia a alguma coisa que a pessoa queria mesmo fazer. Que faria assim que tivesse oportunidade. A fantasia, não. A fantasia, algo que poderia ficar de forma infindável apenas na imaginação, sem jamais se concretizar, porque a pessoa, no fundo, não faria mesmo aquilo. Eu entendi, mas não achei a mim aplicável. Jamais revelei uma fantasia, por mais absurda, que não quisesse mesmo realizar. Tornar real. Viver. Não tenho fantasias que não faria quando da oportunidade. Pra mim é apenas o tempo da oportunidade existir. Ou melhor, se não existir, criá-la. Quando me dôo, todas as minhas palavras não formam frases, tornam-se confissões. Só escondo, omito ou calo quando constrangido. Quando ser eu passa a ser feio para a outra pessoa. Antes eu me abandonava. Hoje tenho aprendido a ir embora.

Não entendo de metáforas, ironias, sarcasmos, alegorias, eufemismos, disfarces, enfeites... Se falei é porque quero. Se não falei, também posso querer. Se ouvi, pra mim é verdade. Se não ouvi, imagino. Deliro. Quando confio, não me importa pra onde. Se eu convidar e ouvir "sim", já estamos juntos no mesmo barco, e caminho. Se me convidou, já somos nós a viagem, e destino.

Não ignoro a magia do mistério, é claro. Tampouco confio em qualquer um. Em qualquer uma. Para ser considerado adulto, também a aprendi a mentir. Mas, aberto, sou cândido, vulnerável, inocente. Criança. Simplesmente acredito. Verdade não carece tradução.

A brisa não pergunta. Deus existe. As nuvens são mesmo de algodão.


O escafandro e a borboleta

segunda, 25/mai/2009 às 01:23 por Vanderlei Martinelli

Falar o que direi pode parecer presunção aos 20, aos 30... Mas agora, passados alguns anos a mais, talvez não. Ou talvez sim. Eu posso sempre estar errado. E quando digo que posso, não estou apenas mencionando a possibilidade real de estar mesmo errado e nem me dar conta, mas também que posso sim estar errado, no sentido que tenho o direito de estar. O fato de eu ter nascido imperfeito é Deus dizendo-me que já vim para a vida pré-perdoado. De tudo. Então com ele pode deixar que eu me entendo. Está tudo em casa. Complicado é entender-se com todos os outros e, principalmente, comigo mesmo.

Mas não é sobre isso que eu ia falar. Ia falar de um dom que acredito que tenho. Que é o de enxergar numa pessoa seu potencial. Seus potenciais. Como ela seria se não fosse imperfeita. Se não tivesse limitações. Isso pode, em princípio, parecer uma bênção. Mas, sozinho, este dom pode ser muito prejudicial. Muito mesmo. Quantas vezes quis sair mudando todo mundo? Querendo que as pessoas enxergassem em si o que eu já enxergava tão antes e elas ainda não? Ou já enxergavam, mas sabiam que ainda não eram capazes de chegar até lá? Ou sabiam-se capazes, mas não queriam chegar até lá? Ninguém é obrigado a ser do jeito que eu vejo. Querer isso é um enorme desrespeito. Ah, e existe a também enorme possibilidade de eu estar enxergando o que não existe e estar completamente enganado. Mas aí... Eu sempre posso estar errado. O que não me dá o direito ao desrespeito, porém.

Tenho entendido que o melhor então é procurar casar esse dom com o aprendizado de também enxergar e respeitar as limitações de cada um. E o direito, inalienável, da pessoa ser quem escolheu e escolhe ser. Quando escolher ser. Isso se quiser escolher. "Ah, eu tenho um talento inigualável pra pintura? Que bom saber, mas eu não quero ser pintor." Então tá... Tá tudo bem. Não ficar então insistindo ou presenteando essa pessoa com cavaletes, telas e tintas. Ou... "Que bom que tenho talento pra pintura. Gostaria de ser pintor, mas não acho que consiga." Então tá bem também. Um dia quem sabe? Está aí minha dica. Se você escolher ser pintor, será um dos melhores. Gostaria apenas que lembrasse que a qualquer momento você pode escolher ser o que quiser.

Fácil falar, né? Estou tentando aplicar isso... Mas, principalmente, respeitar minhas próprias limitações. Pois também consigo enxergar (um tanto vagamente, admito) como eu seria não fossem elas. Não fosse eu tão imperfeito. E tenho descoberto por vivência o que é óbvio em qualquer frase feita ou livro de auto-ajuda. Que a única pessoa que podemos mudar somos nós mesmos. E ir vencendo essas limitações próprias. Empurrando os limites para mais longe, enquanto não consigo ultrapassá-los. O que também não é nada fácil. Mudar a mim mesmo? Sim e sempre. Mas também descobrir o que não quero mudar. Mesmo que para os outros seja errado ou não seja útil, bonito ou admirável. Coisas que gosto de ser e gostaria de continuar sendo. Coisas que sei que um dia não serei mais, mas por enquanto quero ou preciso que seja. E não me iludir achando que posso viver sem elas. Que posso ignorar minha própria natureza em nome de... Seja o que ou quem for. Por mais importante. Eu também sou importante. Quem me ama que também me respeite.

Um dia acordei ao seu lado com uma intuição... Uma impressão esquisita após um sonho. Eu simplesmente sabia que alguém muito próximo morreria em 2010. A sensação quando acordei me contava que era eu mesmo. Fiquei pensando naquilo... Eu que já achei que ia morrer nunca. Eu que já quis a morte algumas vezes. Encontrei-me sem medo dela. Mas também sem a ânsia de encontrá-la. Nem o adiamento nem a pressa. Quando acontecer será naturalmente. No ano que vem ou em 2067. Cazuza disse que morrer não dói. Pressinto que não deve doer mesmo. A dor é deixar, no meio, uma festa que continuará sem nós. Que não aproveitamos ou não dançamos as músicas que queríamos porque nos achávamos incapazes ou nos achariam (ou nos acharíamos) ridículos.

Dói é ver a pessoa partindo sem saber quando a encontraremos novamente. Que aprenderemos a viver sem ela e ela sem nós. Esse pressentimento da saudade, que é apenas a ponta ainda da dor que se tornará. Até, depois do tempo, evaporar e ficar apenas a essência do que é bom na saudade. De tudo que nos parecia trivial, mas que é essencial e já não temos. A gente tem isso de achar que o fim existe. Sendo que tudo é eterno. A gente tem isso de achar que tudo é eterno... Quando sabemos que tudo é efêmero. Que sempre haverá tempo pra dizer ou demonstrar aquilo que tivemos preguiça ou falta de coragem em dizer. Ou que fomos pequenos mesmo e nos negamos dizer. Ou demonstrar. Ou fazer. O amor é o ridículo da vida, também dizia Cazuza. Entendo o que ele quis dizer, mas acredito que o amor não é o ridículo da vida. É a própria vida. Ridículos somos nós que o sentimos, mas não temos a menor nem a mais vaga idéia de como lidar com ele.

Essa pureza impossível. Esse ideal de perfeição. Perfeição que, se não há em um, haverá em outro. E ainda não entendemos que não há em ninguém. A beleza do ser humano está em sua imperfeição. Em como descobre maneiras de vencê-la dia após dia e ir além. Para descobri-la ainda tão maior, a imperfeição. E a si mesmo também. Tão enorme. Como nem ousava imaginar ser. Tão belamente imperfeito.

Deus, admirador da beleza, fez assim por bem nos criar imperfeitos. Para poder contemplar como somos belos quando humanos. Se quisesse outros iguais a si teria criado espelhos. Mas somos sim, de alguma forma, seus espelhos. Porque Deus também não é perfeito. (Embora ele, diferentemente de nós, não cultive a ilusão de um dia vir a ser.)

As borboletas são perfeitas. Mas existem e vivem apenas por 24 horas.


...

domingo, 17/mai/2009 às 13:19 por Vanderlei Martinelli

Eu quero dizer que a dor de dente passou. A dor de dentro, mais forte e intensa, não. Que as curvas e os vãos da cidade ainda formam seu rosto, mas que, aos poucos, também ganham a minha fisionomia. Que não roubei de você a cidade, você a tinha abandonado antes. Que longe estávamos mais perto. Que a pé, era mais fácil chegar. Que nem por isso eu iria parar. Que ainda não tive coragem de debruçar o retrato. Que retirar as fotos dos álbuns não excluirá os momentos que as criaram de sua memória. Que o fim aviva a memória do começo, e ofusca a própria. E que, desde o começo, tudo deu certo e foi mágico e verdadeiramente lindo. Que errado é poeta passar a viver sem poesia. O palhaço sem folia. (Sem mar eu procuro o rio.) Que não houve nem há outra. Que seria fácil pra mim se houvesse, mas muito mais fácil para você, que então não precisaria cogitar os verdadeiros porquês. Que ainda não comprei a geladeira, mas que agora já dá pra fazer café. Que voltei a fumar. Que continua fazendo mal, que o cheiro é ruim, mas que o sabor permanece bom. Que não sei como ou se vou devolver a cadeira e os livros. Que nossos amigos de repente, querendo eu ou não, se auto-devolverão a você (entendo, já eram seus de antes). Que os poucos meus sempre quiseram ser nossos. Que amor não é tudo, mas um dos pilares. E que quando os outros enfraquecem, a queda pode ser gradual e lenta, mas inevitável. Que não aprendemos a viajar juntos. Que não aprendemos a planejar juntos. Que não aprendemos a sonhar juntos. Que os ventos levam até certo ponto, depois são precisos remos, força e vontade. Que sem planos não se sai do lugar. Que os sonhos são a matéria-prima da realidade. Que minha gratidão existe, mesmo que você não a queira. Que aprendemos e crescemos tanto juntos. E que foi para isso que nos encontramos. E nos saímos muito, muito bem. Que não houve fim. Houve completude. Que o final, quando assim, deveria ser tão feliz quanto o começo. (Que se tivesse havido um "sim", eu saberia que as trilhas eram outras, talvez as que eu queria, mas não as necessárias. Confesso que demorei pra lhe alcançar. E que quando isso aconteceu, eu já estava longe. Entendo que o desencontro foi tão necessário quanto o encontro. E que agora, para continuarmos crescendo e aprendendo, nossos caminhos precisam mesmo ser diferentes.) Que não perdemos nada porque tudo continuará em nós. Que a tristeza existe, eu sei. E também é bela. Que enxergar é sempre bom, mas que às vezes a claridade dói. Que a decisão não era só minha (há muito mais do que não vemos mas sentimos). Que apenas a compreendi e resolvi assumir sozinho a responsabilidade de dizê-la. Que nossos momentos mais simples eram os mais importantes. Que nossas brincadeiras mais singelas eram as mais preciosas. (Talvez sejam essas as faltas que tanto doem e doerão mais até se apaziguarem no alicerce do que somos.) Que sua alegria sempre me deu forças para mudar o mundo. E que continuará dando. Que não preciso ser seu namorado para dizer que te amo. E que continuarei amando.


A nossa música

domingo, 10/mai/2009 às 21:05 por Vanderlei Martinelli

Nosso sonho
Se perdeu no fio da vida
E eu vou embora
Sem mais feridas, sem despedidas

Eu quero ver o mar
Eu quero ver o mar
Eu quero ver o mar
Eu quero ver o mar

Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo
Lembre da nossa música
Música

Se lembrar dos tempos
Dos nossos momentos
Lembre da nossa música
Música

Nossas juras de amor
Já desbotadas
Nossos beijos de outrora
Foram guardados

Nosso mais belo plano
Desperdiçado
Nossa graça e vontade
Derretem na chuva

Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo
Lembre da nossa música
Música

Se lembrar dos tempos
Dos nossos momentos
Lembre da nossa música
Música

Um costume de nós
Fica agarrado
As lembranças, os cheiros.
Dilacerados

Nossa bela história
Tá no passado
O amor que me tinhas
Era pouco e se acabou

Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo
Lembre da nossa música
Música

Se lembrar dos tempos
Dos nossos momentos
Lembre da nossa música
Música

("Música", Liminha e Vanessa da Mata)


Copyright © 2007-2009 Vanderlei Martinelli. Todos os direitos reservados.