Insieme

Ensemble Insieme Juntos Nместе Together Zusammen

A dor

domingo, 21/jun/2009 às 23:07 por Vanderlei Martinelli

"Mas, onde é que dói?" – minha mãe perguntava. Eu agravava a cara de dor, os olhos de choro... E permanecia em silêncio. Como se mudo fosse de nascença. As palavras eram como leais cúmplices sob tortura. Jamais me entregariam. Além do mais não saberiam mesmo explicar. E eu era criança. Como dizer: "Olha, mãe: eu não sei onde dói. Só sei que dói."? Eu apenas me encolhia todo e ainda mais. Mas minha mãe ouvia. Não a minha voz. A minha alma. "Hum... Eu vou ao mercado comprar milho. Será que se você comer curau, melhora?" E eu apenas esboçava um forçoso sorriso. Não o sorriso de quem já está bom, senão não faria sentido nem seria verdade. E era sentido. E era verdade. Eu não estava mesmo bom. Então concordava com um abano de cabeça. Como quem quisesse sorrir, mas sem sorrir. Um sim que ainda não foi dito. Mas já foi.

Nunca acreditei nos milagrosos poderes curadores do curau, côco, canja ou qualquer outra coisa pensada e inventada por ela na hora. Só sei que ficava bom... No decorrer do dia, é claro. E não era porque eu queria aquelas coisas. Sério. Eu não queria o fim, queria o meio. Queria o ato. Ela ir lá ao mercado e comprar seja lá o que fosse, mas antes: me olhar com aquele olhar doce. De abrigo, de proteção, de compreensão. De amparo. E cuidar e me paparicar o dia inteiro. O amor, o carinho, a preocupação. Sem querer explicação. Ela já sabia. Sabia que onde doía não dava pra explicar. E nem achava que era mentira. Pois não era. Doía. De verdade. Em algum lugar que eu não sabia, nem sei, identificar.

Hoje que aprendi a ler, poderia citar Carpinejar: "Dói onde não fui beijado". Ou, me surpreendendo com minha idade (como se ela tivesse aparecido de uma hora pra outra), dizer como Luiza Voll: "Tudo que não vivi dói". Ou hoje, que aprendi a escrever e não me contentar com os calendários passados, citar a mim mesmo, complicando e dizendo: "Tudo que eu sei que poderia ser vivido e não foi, não porque eu não quis, não porque eu não tentei (ou achei que tentei), não porque... Enfim... Dói." Mas continuo não sabendo dizer onde é que dói ou porquê. Só sei que dói. Não quero o curau, o côco ou a canja. Tampouco outra mãe. Eu quero o ato. Ser amado só porque eu existo. Sem condições, desconfianças ou explicações. E, justamente por isso, ser assim curado de toda esta dor... Profunda, importante e verdadeira. Insuportável e indizível. Invisível e sem explicação. Como continuo a ser. Para quem não me vê.


Um pouco de céu

domingo, 21/jun/2009 às 18:09 por Vanderlei Martinelli

Aos incensos queimados. Aos espinhos sangrados.

Aos namoros inacabados. Aos retratos virados.

Aos olhos desconfiados. Aos dias reinventados.

Às pétalas e rastros no chão. Aos pedaços emendados de coração.

Aos breves e belos, amores eternos. Às novas rimas em velhos cadernos.

Às idas e vindas do inferno. Ao início do Inverno.


sexta, 12/jun/2009 às 18:43 por Vanderlei Martinelli

I never felt this way before
I have seen so many islands
I never felt this way before
So in this song here I describe him

The chariots rise
Up high in the sky
What grace have I
To fall so in love
What a wonderful dream
It seems to be
'Cause I love him

I took the notes of past excursions
I read them through once more
Only to find them hard aversions
From the one true love in store

The chariots rise
Up high in the sky
What grace have I
To fall so in love
What a wonderful dream
It seems to be
'Cause I love him

Though I have waited long
And they have all been wrong
Now I find in the end
With him I need not pretend

The chariots...
They rise up high in the sky
What grace have I
To fall so in love
What a wonderful dream
It seems to be
'Cause I love him

'Cause I love him!

("Chariots Rise", Lizzie & Baba)


Perto daqui...

quinta, 11/jun/2009 às 15:07 por Vanderlei Martinelli

Lembra de mim...
Dos beijos que escrevi nos muros a giz
Os mais bonitos continuam por lá
Documentando que alguém foi feliz

Lembra de mim...
Nós dois nas ruas provocando os casais
Amando mais do que o amor é capaz
Perto daqui, há tempos atrás...

Lembra de mim...
A gente sempre se casava ao luar
Depois jogava os nossos corpos no mar
Tão naufragados e exaustos de amar

Lembra de mim
Se existe um pouco de prazer em sofrer
Querer te ver, talvez eu fosse capaz
Perto daqui ou... Tarde demais...

Lembra de mim

Lembra de mim...
A gente sempre se casava ao luar
Depois jogava os nossos corpos no mar
Tão naufragados e exaustos de amar

Lembra de mim
Se existe um pouco de prazer em sofrer
Querer te ver, talvez eu fosse capaz
Perto daqui... Tarde demais...

Lembra de mim

("Lembra de Mim", Vitor Martins & Ivan Lins)


Devolução

terça, 02/jun/2009 às 22:27 por Vanderlei Martinelli

O rio escorre as águas dos meus olhos. A foto: menina, moleca. Meu nariz de palhaço. Eu fiz. Agora o que é que eu faço? Vermelhos: caneca, balde. Vinho, chocolate e um buquê de flores. Chorar, eu posso? Ou me arrancaram também o direito? Falo a língua dos gatos. Lá do alto. Lembra? Cobertura de hotel. Nem existia sorvete de gengibre. Só quentão e quem sabe mel? E lábios pra lamber. Pressintia tantos pudores. A se derreter. Mas quais as dores que ainda iríamos ter? Não peço desculpas, porque não errei. Que raio de pecado é esse? Se sigo sem perdão. Ir ao seu encontro eu iria. Desde sempre. Sempre fui. Mas agora é em vão. É sua vez. E você não vem. Sei que não. Por que sempre fui eu a ceder? Você também não sabe. Pra quem eu pergunto? Minha dor é menor porque saiu da minha boca decisão? Ter razão não me resolve. Porque sou feito de emoção. Apenas saiba. De mim, não houve presentes. Apenas dei o que já era seu. Desde sempre. Nada de volta não. Mas agora, último favor. Só devolve. O chão. Meu coração.

(Ou então me envolve. O céu. A paixão. Pra revirarmos. O mar. Uma canção.)


Ironia

segunda, 01/jun/2009 às 21:03 por Vanderlei Martinelli

Estranhos os carinhos do vento...
Reaprendo a escrever. O cigarro não esquentaria.
(Devia ter trazido mais blusas. Tão perto do início. Quem diria?)

Estranhos os caminhos que invento.
Reaprendo a viver. O sol não aquece. Sem você,
que me esqueceria. Nem cais ou Cazuza. Vinicius. Vícios ou rebeldia.

Era coragem, medo ou covardia?
Quem é que me via? Perdeu-se entre tanta teimosia?
Quem é você? Diz. Quem que eu tanto queria?

Era miragem, cedo ou travessia?
Quem não me via? Pra quê querer-me como guia?
Fui aonde você quis. Você, menos pra onde eu iria.


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