"Mas, onde é que dói?" – minha mãe perguntava. Eu agravava a cara de dor, os olhos de choro... E permanecia em silêncio. Como se mudo fosse de nascença. As palavras eram como leais cúmplices sob tortura. Jamais me entregariam. Além do mais não saberiam mesmo explicar. E eu era criança. Como dizer: "Olha, mãe: eu não sei onde dói. Só sei que dói."? Eu apenas me encolhia todo e ainda mais. Mas minha mãe ouvia. Não a minha voz. A minha alma. "Hum... Eu vou ao mercado comprar milho. Será que se você comer curau, melhora?" E eu apenas esboçava um forçoso sorriso. Não o sorriso de quem já está bom, senão não faria sentido nem seria verdade. E era sentido. E era verdade. Eu não estava mesmo bom. Então concordava com um abano de cabeça. Como quem quisesse sorrir, mas sem sorrir. Um sim que ainda não foi dito. Mas já foi.
Nunca acreditei nos milagrosos poderes curadores do curau, côco, canja ou qualquer outra coisa pensada e inventada por ela na hora. Só sei que ficava bom... No decorrer do dia, é claro. E não era porque eu queria aquelas coisas. Sério. Eu não queria o fim, queria o meio. Queria o ato. Ela ir lá ao mercado e comprar seja lá o que fosse, mas antes: me olhar com aquele olhar doce. De abrigo, de proteção, de compreensão. De amparo. E cuidar e me paparicar o dia inteiro. O amor, o carinho, a preocupação. Sem querer explicação. Ela já sabia. Sabia que onde doía não dava pra explicar. E nem achava que era mentira. Pois não era. Doía. De verdade. Em algum lugar que eu não sabia, nem sei, identificar.
Hoje que aprendi a ler, poderia citar Carpinejar: "Dói onde não fui beijado". Ou, me surpreendendo com minha idade (como se ela tivesse aparecido de uma hora pra outra), dizer como Luiza Voll: "Tudo que não vivi dói". Ou hoje, que aprendi a escrever e não me contentar com os calendários passados, citar a mim mesmo, complicando e dizendo: "Tudo que eu sei que poderia ser vivido e não foi, não porque eu não quis, não porque eu não tentei (ou achei que tentei), não porque... Enfim... Dói." Mas continuo não sabendo dizer onde é que dói ou porquê. Só sei que dói. Não quero o curau, o côco ou a canja. Tampouco outra mãe. Eu quero o ato. Ser amado só porque eu existo. Sem condições, desconfianças ou explicações. E, justamente por isso, ser assim curado de toda esta dor... Profunda, importante e verdadeira. Insuportável e indizível. Invisível e sem explicação. Como continuo a ser. Para quem não me vê.