Falar o que direi pode parecer presunção aos 20, aos 30... Mas agora, passados alguns anos a mais, talvez não. Ou talvez sim. Eu posso sempre estar errado. E quando digo que posso, não estou apenas mencionando a possibilidade real de estar mesmo errado e nem me dar conta, mas também que posso sim estar errado, no sentido que tenho o direito de estar. O fato de eu ter nascido imperfeito é Deus dizendo-me que já vim para a vida pré-perdoado. De tudo. Então com ele pode deixar que eu me entendo. Está tudo em casa. Complicado é entender-se com todos os outros e, principalmente, comigo mesmo.
Mas não é sobre isso que eu ia falar. Ia falar de um dom que acredito que tenho. Que é o de enxergar numa pessoa seu potencial. Seus potenciais. Como ela seria se não fosse imperfeita. Se não tivesse limitações. Isso pode, em princípio, parecer uma bênção. Mas, sozinho, este dom pode ser muito prejudicial. Muito mesmo. Quantas vezes quis sair mudando todo mundo? Querendo que as pessoas enxergassem em si o que eu já enxergava tão antes e elas ainda não? Ou já enxergavam, mas sabiam que ainda não eram capazes de chegar até lá? Ou sabiam-se capazes, mas não queriam chegar até lá? Ninguém é obrigado a ser do jeito que eu vejo. Querer isso é um enorme desrespeito. Ah, e existe a também enorme possibilidade de eu estar enxergando o que não existe e estar completamente enganado. Mas aí... Eu sempre posso estar errado. O que não me dá o direito ao desrespeito, porém.
Tenho entendido que o melhor então é procurar casar esse dom com o aprendizado de também enxergar e respeitar as limitações de cada um. E o direito, inalienável, da pessoa ser quem escolheu e escolhe ser. Quando escolher ser. Isso se quiser escolher. "Ah, eu tenho um talento inigualável pra pintura? Que bom saber, mas eu não quero ser pintor." Então tá... Tá tudo bem. Não ficar então insistindo ou presenteando essa pessoa com cavaletes, telas e tintas. Ou... "Que bom que tenho talento pra pintura. Gostaria de ser pintor, mas não acho que consiga." Então tá bem também. Um dia quem sabe? Está aí minha dica. Se você escolher ser pintor, será um dos melhores. Gostaria apenas que lembrasse que a qualquer momento você pode escolher ser o que quiser.
Fácil falar, né? Estou tentando aplicar isso... Mas, principalmente, respeitar minhas próprias limitações. Pois também consigo enxergar (um tanto vagamente, admito) como eu seria não fossem elas. Não fosse eu tão imperfeito. E tenho descoberto por vivência o que é óbvio em qualquer frase feita ou livro de auto-ajuda. Que a única pessoa que podemos mudar somos nós mesmos. E ir vencendo essas limitações próprias. Empurrando os limites para mais longe, enquanto não consigo ultrapassá-los. O que também não é nada fácil. Mudar a mim mesmo? Sim e sempre. Mas também descobrir o que não quero mudar. Mesmo que para os outros seja errado ou não seja útil, bonito ou admirável. Coisas que gosto de ser e gostaria de continuar sendo. Coisas que sei que um dia não serei mais, mas por enquanto quero ou preciso que seja. E não me iludir achando que posso viver sem elas. Que posso ignorar minha própria natureza em nome de... Seja o que ou quem for. Por mais importante. Eu também sou importante. Quem me ama que também me respeite.
Um dia acordei ao seu lado com uma intuição... Uma impressão esquisita após um sonho. Eu simplesmente sabia que alguém muito próximo morreria em 2010. A sensação quando acordei me contava que era eu mesmo. Fiquei pensando naquilo... Eu que já achei que ia morrer nunca. Eu que já quis a morte algumas vezes. Encontrei-me sem medo dela. Mas também sem a ânsia de encontrá-la. Nem o adiamento nem a pressa. Quando acontecer será naturalmente. No ano que vem ou em 2067. Cazuza disse que morrer não dói. Pressinto que não deve doer mesmo. A dor é deixar, no meio, uma festa que continuará sem nós. Que não aproveitamos ou não dançamos as músicas que queríamos porque nos achávamos incapazes ou nos achariam (ou nos acharíamos) ridículos.
Dói é ver a pessoa partindo sem saber quando a encontraremos novamente. Que aprenderemos a viver sem ela e ela sem nós. Esse pressentimento da saudade, que é apenas a ponta ainda da dor que se tornará. Até, depois do tempo, evaporar e ficar apenas a essência do que é bom na saudade. De tudo que nos parecia trivial, mas que é essencial e já não temos. A gente tem isso de achar que o fim existe. Sendo que tudo é eterno. A gente tem isso de achar que tudo é eterno... Quando sabemos que tudo é efêmero. Que sempre haverá tempo pra dizer ou demonstrar aquilo que tivemos preguiça ou falta de coragem em dizer. Ou que fomos pequenos mesmo e nos negamos dizer. Ou demonstrar. Ou fazer. O amor é o ridículo da vida, também dizia Cazuza. Entendo o que ele quis dizer, mas acredito que o amor não é o ridículo da vida. É a própria vida. Ridículos somos nós que o sentimos, mas não temos a menor nem a mais vaga idéia de como lidar com ele.
Essa pureza impossível. Esse ideal de perfeição. Perfeição que, se não há em um, haverá em outro. E ainda não entendemos que não há em ninguém. A beleza do ser humano está em sua imperfeição. Em como descobre maneiras de vencê-la dia após dia e ir além. Para descobri-la ainda tão maior, a imperfeição. E a si mesmo também. Tão enorme. Como nem ousava imaginar ser. Tão belamente imperfeito.
Deus, admirador da beleza, fez assim por bem nos criar imperfeitos. Para poder contemplar como somos belos quando humanos. Se quisesse outros iguais a si teria criado espelhos. Mas somos sim, de alguma forma, seus espelhos. Porque Deus também não é perfeito. (Embora ele, diferentemente de nós, não cultive a ilusão de um dia vir a ser.)
As borboletas são perfeitas. Mas existem e vivem apenas por 24 horas.